É com a fundação do primeiro Hospital Termal do mundo, em 1485 que, se enquadra a construção da Igreja de Nossa Senhora do Pópulo cuja conclusão das obras datam de cerca de 1500, tendo sida elevada a Igreja Matriz em 1510.

A invocação a Nossa Senhora do Pópulo, culto até à data inexistente no nosso país é, normalmente associada ao Cardeal Alpedrinha, confessor pessoal e conselheiro da Rainha que, terá tido um papel importante junto do Papa em Roma, nos pedidos de apoios para a construção da referida igreja. Alguns investigadores não deixam no entanto de referir a dimensão universal de protecção de doenças que, o culto a Nossa Senhora do Pópulo acarreta.

Tida como um dos primeiros exemplares da arquitectura manuelina, assume-se de incontornável importância no panorama artístico nacional da época que representa, afigurando-se como elemento incontornável no estudo da História da Arte Portuguesa. Apresenta na sua construção algumas soluções que se destacam pela originalidade construtiva. De salientar a capela-mor cuja planta se desenha em forma de quadrado. Pouco habitual entre nós, esta particularidade utilizada antes no Mosteiro da Batalha, não pode deixar de ser associada às construções de origem moura no nosso território. O sistema de abóbada utilizado transforma o quadrado num octogono, através da utilização de trompas nervuradas nos ângulos do quadrado, formando uma flor de oito pontas. As chaves de encontro das nervuras ostentam um trabalho de notável feitura, destacando-se a decoração vegetalista de fundo, de forte carga simbólica. A nave, um salão amplo, segue o mesmo sistema de abóbada polinervada, de nervuras secundárias que descansam em mísulas decoradas com animais sentados, numa atitude expectante. O ponto de encontro das nervuras assinala-se com medalhões de fecho decorados com os emblemas régios do Infante D. Fernando, D. João II (Pelicano) e de Dª. Leonor (camaroeiro).

A celebre porta da sacristia, de vão rectangular, é decorada com vasos floridos de açucenas e, emoldurada por fita que se onde se pode ler a seguinte inscrição: “Esta capela mãdou fazer a muito alta he escrarecida he elustrissima rainha dona lianor molher do muito alto e potettissimo rei dom Joham ho segundo he se aquabou na era de mill b.”

A pia-baptismal em forma de cálice, é trabalhada em calcário brando de Ãnça. O pé apresenta motivos góticos em baixo-relevo, imitando decoração de janelas. Destaca-se o nó do cálice, decorado com quatro animais, numa atitude semelhante às mísulas da nave da igreja, assumindo-se com referência simbólica, ao Mal que, através do baptismo, é vencido pelo cristão.

Sobre o arco triunfal, encontra-se o Tríptico da Paixão de Cristo, um dos mais pradigmáticos conjuntos retabulares da pintura da época manuelina, tornando-se por isso uma das obras-primas portuguesas mais analisada por razões que se prendem com a sua autoria (Mestre da Lourinhã, Cristóvão Figueiredo) e com o local original para onde teria sida encomendado (a localização actual ou o antigo retábulo do altar-mor). A primeira tábua, da esquerda, representa Cristo com a cruz aos ombros, rodeado de várias personagens onde se destaca o contraste entre a dor de Cristo e de Simão e, a violência contida dos soldados e a indiferença dos cavaleiros. No painel central, a Crucificação de Cristo é dominada pela cruz e pela figura de Cristo inerte. A
passividade, aparente, é arrebatada pela força interior irradiada. O terceiro painel, representa a Deposição no Túmulo. De enorme mestria técnica na arte do retrato e na utilização do contraste presente no despojamento da arca túmular com a exuberância cromática das vestes das personagens que se debruçam sobre Cristo e, em
oposição com os rostos absortos e corpos distantes das figuras em planos secundários.


As paredes laterais, no interior, encontram-se revestidas por azulejos de tapete seiscentistas, policromos, em dois padrões separados por cercaduras. Azulejos hispano-árabes de aresta, forram os frontais dos altares laterais, realizados em talha dourada no reinado de D. João V.

O altar-mor, de cantaria e mármores, está disposto numa estrutura em arco de triunfo, seguindo o modelo serliano, com dois pares de colunas copósitas, com ediculas no intercolúnio, rodeando o vão central e recebendo um frontão triangular ladeado por aletas.

De uma leitura atenta ao edifício resulta a identificação de alguns pormenores que lhe retiram funcionalidade e que só são entendíveis à luz das várias campanhas de restauro, levadas a efeito nos finais do século XIX e ao longo do nosso século.


In “A Igreja de Nossa Senhora do Pópulo das
Caldas da Rainha – V CENTENÁRIO HOSPITAL
TERMAL”; Silva, Custódio Vieira; 1985

Baixo-relevo Nossa Senhora do Pópulo e o Menino

Encomendado pela Rainha D. Leonor para fazer parte do edificio do primitivo Hospital, terá vindo de Itália. Representa Nossa Senhora do Pópulo com o Menino. Inicialmente estaria colocado na frontaria do Hospital e mais tarde passou a integrar a torre sineira da Igreja de Nossa Senhora do Pópulo.

Por motivos de conservação, foi posteriormente conservado e colocado em exposição no Museu do Hospital e das Caldas, ficando na torre uma réplica produzida para o efeito.

A Igreja de Nossa Senhora do Pópulo tem um longo passado, mais de 500 anos de história e, como qualquer monumento tão antigo, acusa a erosão provocada pelo tempo. Numa feliz iniciativa da Câmara Municipal e colaboração do nosso Centro Hospitalar, proprietário da Igreja, esta será alvo de obras de fundo, desde o telhado e abóbodas sem esquecer as imagens, bancos e o órgão de tubos.

Para além de ser um monumento arquitetónico ímpar, a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo é um corpo vivo, constituído por pessoas que diariamente ali se encontram para celebrar a fé. De segunda a domingo muitos são aqueles que aqui procuram um espaço de silêncio, fora do rebuliço do dia-a-dia, para escutar a voz de Deus, estar um momento a sós. Em rigor, a Igreja não é simplesmente as paredes e as obras de arte que a ornamentam, a Igreja são os homens e mulheres, mais ou menos crentes, que deixam que o Natal aconteça nas suas vidas, abrem as portas à novidade da fé. Esta outra Igreja não entra em obras (embora apresente muitas lacunas e falhas porque é constituída por homens e mulheres de carne e osso) mas irá mudar-se, enquanto decorrem as obras de restauro da Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, para a Capela de S. Sebastião (a capela ao cimo da Praça da Fruta, ao lado do quiosque).

Nesta capela iremos continuar rezar com e por todos aqueles que aqui chegam, com uma intenção muito particular: a oração pelos doentes e funcionários do nosso Hospital de Caldas da Rainha, em especial nos tempos difíceis que atravessamos. Sem nunca imaginar o cenário de pandemia que estamos a viver, a escolha da capela de S. Sebastião acaba por ser uma feliz coincidência. A devoção a S. Sebastião (jovem soldado romano convertido no século IV e martirizado com setas cravadas no corpo, muitas vezes ostentadas nas imagens em sua honra) cresce sobretudo na Idade Média e encontra-se espalhada por todo o país, quando as pessoas eram assaltadas, precisamente, pelas guerras e epidemias (muito frequentes em épocas passadas).

Apesar de não ser muito grande, a capela encontra-se bem conservada e as suas paredes são revestidas a azulejos que ilustram alguns momentos da vida de S. Sebastião. Se a ele se devem muitos milagres, em especial em tempos de guerra e epidemia, que S. Sebastião permita o fim breve desta pandemia e, ao mesmo tempo, o regresso rápido à Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, após as obras de reabilitação. Termino com o convite a visitarem a capela, que é de S. Sebastião e de todos nós. 

Padre Filipe Sousa

No próximo dia 18 de Abril comemora-se o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios.
Ainda que em diferentes condições, não podíamos deixar de assinalar esta data, que se reveste de especial simbolismo no actual momento.
Revisitar a nossa história, entender todos os desafios que ao longo de séculos fomos sujeitos e que ultrapassámos, permite-nos consolidar a nossa forma de estar no presente, com maior segurança e esperança. E, com isso, projectarmos um futuro melhor.
Estamos a preparar algumas propostas, mas para já deixamos o convite à vossa participação, partilhando ao longo dos próximos dias, momentos registados nas vossas visitas!
Porque o Património somos todos nós, e apenas dessa forma faz sentido a sua salvaguarda, a sua memória, e o seu usufruto.

O nosso obrigada a todos vós, que continuam desse lado!

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Sabia que quotidianamente, marmeladas, confeitos e frutos secos eram distribuídos pelos doentes do hospital? Aquando das duas visitas diárias feitas às enfermarias pelo provedor, almoxarife, escrivão, médico e enfermeiro, davam-se doces aos enfermos. Para além das refeições principais, havia também o “almoço” (actual pequeno-almoço) e a merenda, destinadas aos doentes mais fracos e que eram  constituídas por ovos, conservas e vinho. A estes últimos o Compromisso mandava que se desse uma colher de confeitos, “uma talhada de marmelada” ou ovos aos enfermos mais debilitados. À marmelada e aos confeitos era geralmente dado o nome de “mimos para os doentes”, ou “doces”, sendo que esta última designação englobava não só a marmelada, como também “marmelada de sumos”, açúcar rosado e “abóbora cuberta”.

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Triunfo de São Martinho de Gil Vicente para ver!

“É a Rainha Dona Leonor que encomenda a peça a Gil Vicente actor/autor. Terá sido um doente do Hospital, existente desde 1485, a dar corpo em cena à figura do “pobre chagado”. O sentido do auto é claro: São Martinho divide a capa com o pobre e salva-o assim do frio mortal. O gesto tem obviamente um significado para além do literal, simboliza a ideia cristã de salvar os mais fracos da sua desprotecção, de assumir, ao nível estatal, já que a peça era pedida pela rainha, uma função social solidária. Diz isso, necessariamente, por meios teatrais. E essa função solidária teatralmente expressa pela partilha da capa é uma metáfora da função hospitalar.”

https://teatrodarainha.pt/eventos/triunfo-de-sao-martinho-de-gil-vicente/

 

 

#12 Sabia que…?

…Sabia que os doentes do hospital eram alimentados de forma especial no período de purga? Em regra, o período de purga durava seis dias e os doentes purgados comiam frango e/ou galinha, cabrito, açúcar rosado, ameixas à “ceia” antes da purga (para estimular o processo purgativo), e um quarto de galinha cozida, juntamente com uma colher de confeitos. No dia da purga, comiam um quarto de galinha assada à ceia, e na manhã seguinte um limão.

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#Sabia que…?
 
…Sabia que as camas dos enfermos estavam rodeadas por cortinas? A presença de cortinas era importante, não só para manter os enfermos quentes depois de tomarem os seus banhos, ajudando-os no processo de suadouro, como também para criar alguma privacidade dentro das enfermarias. As argolas e as cortinas das camas estavam suspensas por “barrões de ferro”. Neste aspecto, as camas do hospital de Nossa Senhora do Pópulo aproximavam-se do modelo de nichos com camas encortinadas frequente na maior parte dos hospitais europeus.
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… Sabia que devido aos compostos das águas termais, as paredes do hospital eram caiadas todos os anos? No geral, as enfermarias do hospital de Nossa Senhora do Pópulo eram forradas a madeira de castanho ou pinho e ladrilhadas com tijolo cozido rebatido, sendo quase anuais as despesas com o forramento das enfermarias femininas e masculinas. Consequência dos efeitos corrosivos dos minerais das águas e vapores termais, as paredes do hospital, os objectos de culto da igreja e os equipamentos das enfermarias, cobriam-se com frequência e relativa rapidez de azebre ou verdete. O hospital, por ter sido construído sobre nascentes de águas, e por diariamente as utilizar, era um edifício que, tal como hoje, sofria de graves problemas de humidade. Por isso, todos os anos, o provedor reservava certa quantia de dinheiro, proveniente das rendas do hospital, para caiar e rebocar as paredes do edifício e para lavar toda a prataria da Igreja.

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Sabia que cada uma das camas do hospital tinha as seguintes peças de roupa? Cada cama tinha um enxergão de palha, um almadraque de trez de lã, um colchão de linho avincado e cheio de lã, um cabeçal de pena, uma almofada, meia dúzia de lençóis de linho também avincado, um feltro para colocar por cima desta roupa e dois cobertores (um de capistrol branco ou de pano semelhante, o outro de cacheira ou Irlanda).

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