Barro, memórias de um lugar onde o tempo se repete.

Corria o ano de 1570 quando Fr. Damião da Torre, provincial da Província da Arrábida pediu autorização à Infanta D. Maria, filha de D. Manuel I, para a fundação de um novo convento. Este convento à semelhança dos demais da província, deveria ser despojado de luxos e exuberâncias, bem ao gosto dos filhos de S. Francisco à época.

O local escolhido falaria por si próprio, um sitio protegido dos ventos abundantes, circundado por montes bucólicos. Revelar-se-ia o local perfeito para o recolhimento e noviciado assim como para a recuperação de frades “fraquinhos do peito”, expressão da época para designar aqueles que padeciam de doenças pulmonares. Seria esta a primeira referência à área da saúde, tema querido ao edifício desde a sua fundação.

Após a primeira fundação, e face à fraca construção inicial, o primitivo convento sucumbiu à força dos invernos rigorosos. Para conter estas dificuldades, e depois de alguma discussão acerca de uma nova localização, o convento é refundado em 1619 no mesmo local. Para isto contribuíram as memórias das lendas na comunidade local, que levaram à escolha da localização inicial. Estas proclamavam que Nossa Senhora o haveria escolhido por vontade divina.

Ainda hoje podemos vislumbrar a força da construção de início de seiscentos, com paredes de alvenaria de pedra com mais de dois metros de largura, capazes de conter a força de qualquer elemento da natureza. Composto por um edifício com um modesto claustro, a celebração da vida divina acontecia na sua igreja encostada do lado norte.

Na capela-mor foram aplicados em 1725 dois interessantes painéis de azulejos atribuídos aos mestre P.M.P, referência maior da época na sua arte.

O convento que durante o terramoto de 1755 sofre alguns danos, nomeadamente na igreja, é colocado ao abandono após a expulsão das ordens religiosas em 1834. Depois de andar de mão em mão particular, é comprado pelo Marquês da Vallada em 1857, que em 1860 o entrega ao Padre Carlos João Randemaker, forte impulsionador do regresso da Companhia de Jesus a Portugal.

De pequeno convento arrábido modesto, até ao séc. XIX, após a chegada dos Jesuítas, a transformação no edificado é radical. Se anteriormente as estruturas eram pautadas por espaços pequenos e contidos, com as obras iniciadas a partir de 1860, assistimos ao nascimento de vários edifícios de grande escala que crescem em torno do edifício conventual quinhentista. Estas construções foram em larga medida motivadas pela necessidade de acolher um considerável número de religiosos, que ali iriam iniciar a sua vida religiosa. O convento seria dedicado ao noviciado, ficando na história pela restauração da presença dos jesuítas no território português.

Aquando da proclamação da república, em 1910, a história da presença humana no convento do Barro é novamente perturbada e os jesuítas são expulsos, são vários os relatos dramáticos de como as forças republicanas trataram a comunidade religiosa, reflexo de um sentimento anti igreja que se vivia na época.

Para contrariar a presença simbólica da religião no edificado, é inaugurado logo em 1912 pela primeira república, o Asilo Elias Garcia. As funções de asilo mantêm-se até 1942, altura em que o estado confia o edificado ao Instituto do Bom Pastor, que aí passa a desempenhar as funções de acolhimento a raparigas órfãs ou que tenham sofrido dos “males da juventude”.  É aqui mais uma vez restabelecida a presença da comunidade religiosa no antigo convento do Barro.

Desde da expulsão dos jesuítas em 1910 que o edifício não recebia consideráveis obras de conservação, motivo pelo qual em 1953 foi abandonado pelas religiosas do Instituto do Bom Pastor. Pouco depois começam as grandes obras de adaptação do antigo convento do Barro a Sanatório, inaugurado em 1956. Estas obras capacitaram todo o conjunto a desenvolver as mais modernas formas de receber, tratar e cuidar dos doentes, bem como, incluir no processo de reabilitação a multidisciplinariedade, conceito quase inexistente à época nos cuidados de saúde.

Nos inicio dos anos 90 do século XX o sanatório passa a Hospital Dr. José Maria Antunes Júnior, homenageando o seu diretor. Homem responsável pelo sucesso do Sanatório, com o seu brio e entusiasmo, na relação articulada entre todos, funcionários e doentes.

Embora tenham sido levadas a cabo obras de adaptação do edifício quinhentista em 2001, altura em que é integrado no Centro Hospitalar de Torres Vedras, todo o conjunto necessitava já de grandes obras para o bom desempenho das funções hospitalares. É a partir desta altura que começam a ser estudadas formas de manter a viabilidade do conjunto.

Com a incorporação do Centro Hospitalar de Torres Vedras no Centro Hospitalar do Oeste, é decidido o seu encerramento, que ocorre definitivamente em maio de 2015.

A partir desta altura a Câmara Municipal de Torres Vedras ganha consciência da importância de não deixar morrer um conjunto edificado de tamanha importância para o concelho. São realizadas intervenções de salvaguarda do património existente em colaboração com o Centro Hospitalar do Oeste para tentar conter os atos de pilhagens e vandalismo a que o conjunto vinha a sofrer desde o seu encerramento.

Em 2019 é assinado com a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa a criação do “Torres Vedras Health Park for Multidisciplinary Care”, espaço de referência dedicado à prestação de cuidados assistenciais, à formação de profissionais da saúde, ao ensino e à investigação em Medicina e em outras Ciências Biomédicas. À Câmara Municipal de Torres Vedras caberá a realização das obras de adaptação do edificado, e à Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa caberá a operacionalização do corpo técnico e docente, bem como propor potenciais parceiros para a constituição de um consórcio.

O antigo convento do Barro espera novamente o seu tempo na história. O tempo onde saúde, ensino e multidisciplinariedade se voltarão a encontrar.

Paulo Bernardo Gomes

Centro de Artes e Criatividade – Câmara Municipal de Torres Vedras

Vista aérea, conjunto edificado, antigo Hospital Dr. José Maria Antunes Júnior   2019

Centro Hospitalar do Oeste E.P.E.

Resenha Histórica

O entendimento daquele que é hoje o complexo patrimonial em que se enquadra do Centro Hospitalar do Oeste Norte, E.P.E., só é possível à luz do conhecimento histórico e conjectural que motivou, não apenas o surgimento desta instituição, mas também o seu modelo de gestão ao longo dos tempos.

Ainda que de origem recente, o Centro Hospitalar Oeste reúne instituições cuja história da assistência em saúde nos deixam legados patrimoniais que se confundem com a história dos próprios núcleos urbanos onde estão inseridos.

Pela portaria nº 276/2012, publicada em Diário da República, foi criado o Centro Hospitalar do Oeste, passando a assumir-se em pela portaria nº 115/2018, como Centro Hospitalar do Oeste E.P.E., integrando o Centro Hospitalar de Caldas da Rainha e com ele o Hospital Termal Rainha D. Leonor, o Hospital São Pedro Gonçalves Telmo de Peniche e o Hospital Distrital de Torres Vedras que englobava o então Hospital Dr. José Maria Antunes Júnior – antigo Sanatório do Barro.

Tendo por base a fundação daquele que é considerado por Augusto da Silva Carvalho, como o primeiro Hospital Termal do Mundo – Hospital de Nossa Senhora do Pópulo, propõe-se uma abordagem integrativa que se alarga na história da saúde na europa, posicionando Caldas da Rainha, e a região Oeste, a par do Hospital de Todos os Santos e dos grandes e inovadores Hospitais do Renascimento Italiano.

A promoção da saúde não se extingue na fundação deste hospital e na originalidade da sua proposta de gestão, habilmente criada pela Rainha D. Leonor. Prolonga-se ao longo dos tempos, através de soluções inovadoras, como o Hospital de Santo Isidoro já no Séc. XIX, dando resposta às premissas de cuidados de saúde que se faziam sentir então, e às necessidades da população local.

Se a saúde do corpo foi amplamente tratada, a saúde da alma não foi descurada. É disso exemplo a construção da Igreja de Nossa Senhora do Pópulo assegurando o tratamento espiritual dos doentes ou, mais tarde, o Parque D. Carlos I com todas as actividades lúdicas que animavam os que às Caldas da Rainha se vinham tratar.

Nas proximidades, os banhos de mar surgiram como forma de bem-estar, animando o corpo a curar-se nas águas salgadas, e implementando o hábito social de ir a banhos à praia nos inícios do Século XX. As magníficas praias de Peniche são, disso, exemplo.

Embora o Hospital S. Pedro Gonçalves Telmo seja relativamente recente, a história da assistência em Peniche é bem mais antiga, devendo-se a fundação do primeiro hospital à Confraria do Corpo Santo, em 1617.

Será em 1626, com a fundação da Misericórdia de Peniche, que a Irmandade de São Gonçalves Telmo, num gesto de profunda solidariedade, coloca o recente hospital à disposição da nova obra social, garantindo assim os apoios sociais e de saúde a todos os necessitados, bem como o patrocínio cultural para a Igreja vizinha, dos magníficos quadros de Josefa de Óbidos e de seu pai, Baltazar Gomes Figueira.

Por volta de 1831 as instalações do primitivo hospital encontravam-se bastante degradas, tornando-se necessário remodela-las para que as obrigações assistenciais pudessem ser cumpridas, o que acontecerá em 1930.

Afirmando a sua importância na história da saúde em Portugal, será em Peniche que se cria aquele que foi o primeiro Centro Cirúrgico do distrito de Leiria e um dos primeiros instituídos no país. É neste contexto, que será realizada, em 1954, uma intervenção marcante pela sua inovação: “Ferida do coração operada no Hospital de Peniche”, pelo Dr. Simões Moita.

Se a Rainha D. Leonor se constituí como elemento agregador de todas estas unidades hospitalares, na medida em que a Ela se deve a fundação das Misericórdias Portuguesas, também a Ordem de Santa Maria de Rocamador encontra na história do Centro Hospitalar do Oeste lugar de destaque.

A esta ordem se devem as primeiras explorações das águas termais nas Caldas da Rainha, mas também a constituição daquele que será o hospital mais antigo de Torres Vedras, o Hospital de Santa Maria de Rocamador, que se localizaria nas dependências da antiga ermida de N.S.ª do Ameal. Dever-se-á esta obra à Rainha D. Isabel, em 1310. O mesmo viria a ser entregue, em 1337 à Confraria dos Alfaiates.

Segundo o Compromisso do Hospital de S. Geão, no ano de 1359 “decidiram os sapateiros da então vila de Torres Vedras construir um hospital e uma ermida dedicadas ao seu santo protector, S. Julião ou, mais popularmente, S. Gião”

Já no século XVI, com a fundação da Misericórdia de Torres Vedras, e por ordem de D. Manuel em 1520, serão transferidos todos os bens da Confraria, entre eles, o Hospital do Espirito Santo, entretanto anexado. Será ainda, em 1859 anexado o Hospital do Machial. Objectivando melhorar as condições de assistência, será em 1943 inaugurado o novo edifício do Hospital ao serviço da Misericórdia, onde se encontra até aos dias de hoje.

A história cruza-se de forma geral na assistência e na saúde, no entanto, é na vertente de tratamentos respiratórios que confluem pontos comuns entre Caldas da Rainha e Torres Vedras, através do Sanatório do Barro.

Apesar de a sua criação remontar a 1956, a referência às suas qualidades como local de recuperação para os “fraquinhos do peito”, remonta à época da construção do primeiro edificado, em 1570, e reedificado em 1619. Fazendo consolidar a vertente assistencial que sempre se associou a este local.

A sua função inicial, religiosa, manteve-se ao longo da sua história, e apenas será rebatida com a implementação da república em 1910, com a inauguração em 1912 do Asilo Elias Garcia.

Após um período de abandono, devido às más condições do edifício, será então remodelado para instalação do Sanatório em 1956, funcionando até aos anos 90, altura em que é criado o Hospital José Maria Antunes Júnior, em homenagem ao seu administrador. Este seria integrado no Centro Hospitalar de Torres Vedras em 2001.

Com todo o exposto, é certo que o Centro Hospitalar do Oeste. E.PE. agrega na sua génese uma vasta área territorial e histórica, mas também uma complexa rede de bens patrimoniais, redes assistenciais e de cuidados de saúde que constituem memória de toda uma região.

A perpetuação da memória histórica que se traduz nos diversos bens á guarda desta instituição, é instrumento essencial para o cumprimento dos objectivos a que se propõe, sendo que o seu conhecimento contribuirá, em ultima análise, para um melhor entendimento da tarefa de cada um de nós nesta missão.

Caminhamos hoje objectivando uma perspectiva global, que parte das vicissitudes históricas e com as particularidades de cada uma das três comunidades hospitalares, que constituem o CHO, para a construção de uma unicidade potenciada pelo vasto conhecimento e experiencia na assistência e na saúde em Portugal, afirmando-se seguramente nos anais da história da saúde na europa.

Embora alguns dos bens patrimoniais não se encontrem no presente sob a administração do CHO, continuam indissociáveis na sabedoria e conhecimentos adquiridos por todos. Importam por isso constar como elementos parceiros na edificação do futuro, conferindo a cada um deles, em particular, e à história de toda a região, no geral, um sentido mais vasto e uma garantia de futuro alicerçada pela importância histórica que têm.

Após o sucesso da sessão anterior, a Companhia de Teatro para a Infância Estação das Letras, visita-nos uma vez mais, a manhã de sábado 23 de Outubro, para a apresentar novamente a peça “A ILHA”. Um segunda oportunidade para quem não conseguiu lugar na primeira edição.

A Ilha, um pedaço de terra cercado de água por todos os lados.
Uma ilha abraçada pelo vento, embalada pela chuva e beijada pelo sol. Um recreio para bichos e bicharocos e um lar para uma família. O espetáculo convida a sentir a ilha, a descobrir a sua essência, a habitá-la, jogos de luzes e sombras levam o público a fazer parte de um mundo sensorial e imaginário. Sons misteriosos, marionetas, projeção de imagens convidam todos a embarcar numa viagem surpreendente, ondas gigantes, nuvens que deslizam e animais com formas únicas dão vida a este espetáculo.

Interpretação: Tiago Duarte
Produção: Estação das Letras

Classificação etária: para todos | 40 minutos | 5€ por participante
Lugares limitados – Inscrições obrigatórias para 964090165
Espectáculo a realizar de acordo com as orientações da DGS e Ministério da Cultura

O Serviço Pedagógico do Museu do Hospi­tal e das Caldas tem como missão sensibilizar para os valores ligados à defesa do patrimó­nio histórico, documental, cultural e ambien­tal da instituição, bem como despertar na comunidade educativa o interesse pelo seu passado, e compreensão do presente, essen­cial na construção da identidade cultural de cada um. Disponibilizamos as seguintes actividades:

Visitas guiadas ao Património Termal

(Hospital Termal, Museu do Hospital e das Caldas, Capela de S. Sebastião, Igreja Nossa Sra. do Pó­pulo)

Vamos desenhar a Rainha D. Leonor

Inscrição 0,50€/criança

Inclui visita ao Hospital Termal e história com os fantoches da Rainha e do Rei. Segue-se depois um momento em que se propõe às crianças que desenhem a Rainha como cada um a imagina.

Se eu fosse uma gotinha de água termal

Inscrição 0,50€/criança

Realização de uma dinâmica de grupo, onde se conta o ciclo realizado pela água termal das Cal­das da Rainha, desde a Serra dos Candeeiros até ao Hospital. De acordo com o ano de escolaridade será proposto desenha o circuito realizado pela gotinha, ou cada criança desenhará a sua gotinha. Inclui visita a uma das Piscinas.

As profissões no Hospital da Rainha

Inscrição 0,50€/criança

Apresentação do livro do Compromisso, onde se encontram as referências a todas as profissões existentes no Hospital do tempo da Rainha. Ex­ploração da diversidade de funcionários e suas funções. Cada criança escolherá a profissão que mais gostou para representar em desenho.

Se eu fosse uma peça do museu

Inscrição 0,50€./criança

Apresentação de algumas das peças mais emble­máticas do Museu, com particularidades e curio­sidades, que farão as delícias dos participantes. Cada criança escolherá a peça preferida para re­presentar, deixando a sua obra exposta no Museu.

Peddy Paper – Vamos descobrir o Museu do Hos­pital e das Caldas

Inscrição 1.00€/criança

Através de um guião, e dividindo as crianças em peque-nos grupos, serão eles os “descobridores” do Museu. Através de perguntas e pistas vão ficar a conhecer as peças e o Museu.

(Visitas e atividades estão sujeitas a marcação pré­via.

A importância dos Serviços Educativos nos museus / O papel educativo dos Museus

Os museus não podem fechar-se sobre si próprios, sobre as suas colecções. Segundo a Associação Americana de Museus, estas instituições “devem comunicar a essência das ideias, difundir conhecimentos, fomentar a curiosidade e promover a sensibilidade estética”.

O ICOM definiu, em 1974, o museu como “uma instituição permanente, sem fins lucrativos, ao serviço da comunidade, que adquire, conserva, comunica e apresenta com fins de estudo, educação e deleite, testemunhos materiais do homem e do seu meio”. O alargamento da noção de Museu e de Bem Cultural, que se verificou durante o século XX, trouxe benefícios no campo da Museologia. Colocou a questão central das escolhas do Património, alargou o espaço em que se inseriam tradicionalmente estas instituições e relativizou as concepções quase imutáveis inerentes à condição do Museu.

Com a Nova Museologia, o sentido do Museu não se centra exclusivamente no objecto, valoriza igualmente o sujeito que o frequenta. Tal como tudo o que se passa em seu redor, o Museu tem de ser dinâmico e tem de saber acompanhar e incorporar as mudanças que ocorrem, adaptando-se à comunidade onde está integrado, sem perder a sua identidade.

Então como desempenham actualmente o seu papel educativo as instituições culturais, nomeadamente os museus? Que questões se podem colocar relativamente à importância dos Serviços Educativos destas instituições? Poderemos relegar para segundo plano o papel desenvolvido pelos Serviços Educativos, priorizando a colecção museológica? Pode a equipa dos Serviços Educativos ser encarada como estratégica para o sucesso da instituição cultural? Talvez seja de grande relevância uma reflexão sobre esta temática.

Os Serviços Educativos geram, através dos diversos projectos desenvolvidos, relações entre a instituição e as pessoas/público de todas as idades que a visitam, projectando e dinamizando o trabalho desenvolvido pela equipa. Quando recebemos no museu um grupo de visitantes, sabemos que iremos ficar na memória de cada um deles, e a relação que estabelecermos com esse público vai estar para sempre associada ao local visitado, e à experiência vivida.

Os Serviços Educativos permitem o contacto directo com quem nos visita pela primeira vez, conseguindo assim uma perspectiva mais abrangente sobre a forma como a instituição é vista por quem está de fora. Desta forma, os Serviços Educativos podem /devem participar nas reuniões de preparação das exposições, conhecer os projectos que estão a ser programados, sugerir temas para serem explorados, ou seja ter um papel activo na gestão e dinamização do museu.

É certo que nos Serviços Educativos, não estamos a lidar com as necessidades mais básicas da vida das pessoas, no entanto, a sua função vai muito para além do trabalho com as escolas e das visitas guiadas, os serviços educativos não devem substituir o papel da escola, o museu pode e deve ser um espaço para a educação não formal.

O Museu apresenta-se hoje como um espaço versátil, de criatividade e inovação, capaz de proporcionar prazer e sentido lúdico, um espaço que apela à participação das pessoas, à intervenção social. Mais ainda um espaço de partilha de saberes e experiências, e que promove a construção de conhecimento, procurando promover iniciativas relevantes, que proporcionem qualidade da experiência. Lugar privilegiado de activação das memórias e promoção de diálogos.

O sucesso de qualquer espaço museológico passa efectivamente pela atracção que exerce sobre o seu público, que é, em última análise, o seu grande objectivo e a causa da sua existência. O fomento desta relação entre o público e a cultura resultará na preservação e conservação do nosso património, que de outra forma cairá em esquecimento. Só sentindo o museu e respectivos bens patrimoniais como parte si mesmos, da sua história, só com essa consciência poderemos criar a responsabilidade em cada um.

Num período em que tanto se defende a importância da cultura, em que a mesma atravessa tantas dificuldades e tantos são os obstáculos, é necessário criar medidas, mais do que nunca, para contrariar essa tendência.

A aproximação do museu à comunidade que o envolve, tendo como suporte os seus Serviços Educativos, conduzirá à descoberta do significado dos objectos e ao respeito pelo seu valor histórico. A dinamização do espaço museológico, através do desenvolvimento de uma programação adequada e dirigida ao seu público, irá contribuir certamente para promover e desenvolver o museu, que ficará mais próximo de cada visitante e o fará sentir como “o seu museu”, ficando mais enriquecido pela experiência.

                                                                                                                                             Tânia Jorge

O museu é um farol da consciência social, um historiador do futuro, uma muralha contra a escuridão e o desespero, e um templo de elevação do homem, e por isso, um museu precisa de dialogar com a sociedade”. Postman (1989)           

A citação de Postman é um bom ponto de partida para a reflexão do museu enquanto instituição ligada à Comunidade. O museu é antes de mais um espaço onde se contam histórias, onde através do estudo, e da investigação se procura conhecer um passado, que se aprende a respeitar e preservar. Falar de museu, é falar da construção de uma identidade cultural, que só será possível se as instituições museológicas cumprirem a sua função social e pedagógica. Neste sentido, será necessário estabelecer com a comunidade uma relação, tal como diz Postman, “um museu precisa de dialogar com a sociedade”, e através deste diálogo, estabelecer objectivos e metas, trocar experiências, que em conjunto conduzirão à reflexão e ao conhecimento.

O estabelecimento deste diálogo compreende várias etapas, as visitas guiadas pelo património do CHO, destinadas à comunidade em geral, e também às escolas, são um dos diversos exemplos que testemunham o desempenho do papel social e educativo do museu. A tarefa não se apresenta como fácil ou simples, e são diversos os obstáculos que vão surgindo, como o desconhecimento inicialmente verificado por parte da comunidade caldense, relativamente à existência do Museu do Hospital e das Caldas. Primeiramente, a tentativa para alterar esta situação foi a divulgação do Museu através da imprensa regional, onde foram apresentadas algumas das actividades que começaram a ser desenvolvidas pelo museu, nomeadamente a realização de exposições temporárias e outros eventos temáticos.

Uma outra forma de difusão do museu foi através das escolas da região, com as quais estabelecemos um contacto mais próximo, tendo obtido uma resposta surpreendente da parte das mesmas. Comprovámos que as medidas trouxeram resultados extremamente positivos, sendo que as escolas do 1º ciclo (nomeadamente 3º e 4º ano) tornaram-se visitantes regulares ao museu, com intuito de conhecer melhor o passado do meio em que vivem. A cada ano passado, verificou-se um aumento das escolas que visitaram o museu, e que realizaram as actividades que foram disponibilizadas.

Ao longo dos anos tem sido uma preocupação constante do museu, o desenvolvimento de actividades que se adaptem aos vários tipos de público, e que estimulem e despertem o interesse no património e história da cidade de Caldas da Rainha. No que toca aos mais pequenos por exemplo: realizámos o Pedddy Paper, para descobrirem o museu, as actividades de férias escolares (atelier de fantoches, atelier de ciência viva…), realizadas no museu, entre outras dinâmicas de grupo disponibilizadas ao longo do ano lectivo, geradas como complemento das visitas guiadas (se eu fosse rainha/rei; se eu fosse uma gotinha de água termal…). Os projectos desenvolvidos pelos Serviços Educativos do museu permitiram estabelecer uma relação de proximidade com o seu público mais jovem, no sentido de educar e, facultar a esse público os instrumentos necessários para crescerem e se conhecerem a si próprios, porque só assim, poderão de forma crítica e criativa construir a sua identidade cultural.

O Museu do Hospital e das Caldas procurou continuar a dialogar com a sua comunidade, estabelecer uma interacção permanente com o seu público, de forma a possibilitar uma participação activa de todos. A concretização deste ideal passa pela preocupação constante de divulgar e desenvolver novos projectos, tais como os que são disponibilizados pelos Serviços Educativos do museu. 

Paralelamente a esta preocupação de estimular os mais jovens, no que toca à valorização e preservação do património, através do reconhecimento da sua importância, surge também a necessidade de motivar a restante comunidade e envolvê-la no espaço e nas acções museológicas. A realização de exposições temporárias diversas, com temáticas relacionadas com o Hospital Termal, com a cidade e sua evolução ao longo dos tempos, o convite para visitas temáticas, realização de conferências, espectáculos entre outros, foram propostas sistematicamente disponibilizadas pelo museu e dirigidas ao público em geral que tivesse o desejo de conhecer um pouco mais sobre a história e património das Caldas da Rainha. No intuito de que se envolvessem as famílias, e que as várias gerações se tornassem participantes activos e em interacção.

As reacções a este tipo de iniciativas desenvolvidas pelo museu, foram sempre muito positivas, o público interveniente procura demonstrar o seu agradado, sendo a opinião dos visitantes unânime relativamente ao interesse das visitas realizadas, e à importância das mesmas para um melhor conhecimento das Caldas da Rainha e suas origens, de tal forma que expressam a necessidade prosseguimento destes e a realização de novos projectos.

Numa fase como a que estamos a viver, com todas as implicações e impacto que tem causado em todas as áreas, não podemos resignar, é necessário reflectir e perspectivar o futuro, mantendo a resiliência. O Museu do Hospital e das Caldas mantem o seu propósito, continuar a sua missão, cumprindo as suas funções social e pedagógica, sendo para isso essencial estabelecer o intercâmbio com a sua comunidade, assumindo-se como espaço onde se ensina, mas onde também se aprende, porque só tendo como base esta relação podemos ser um museu dinâmico e vivo, que acompanha a sua comunidade na construção/reconstrução da sua identidade cultural. Um museu que conta histórias de um passado e que nos prepara para construirmos a história do futuro, tal como diz Postman o museu é também “um historiador do futuro, uma muralha contra a escuridão e o desespero…”.

A educação patrimonial é uma metodologia que procura criar conhecimento através dos bens culturais, objectivando a valorização da história de cada individuo por extensão à sua história local, a par da identificação, valorização e consequente conservação sustentada do património no geral.

Trata-se assim de um processo permanente e sistemático de trabalho educacional, centrado no património cultural como fonte primária de conhecimento e enriquecimento individual e colectivo.

Olhar criticamente, aplicando a educação patrimonial na sua paisagem quotidiana como um objecto de estudo, é estar sensível ao facto de que assim se sintetizam propostas de intervenções sociais, politicas, económicas, culturais, tecnológicas e naturais, de diferentes épocas, num diálogo entre tempos, partindo do presente. “

Moema Nascimento Queiroz

Objectiva-se desenvolver nos educandos uma análise crítica do seu contexto histórico-social, fortalecendo consciência do seu papel na sociedade, potenciando a sua participação cívica através da apropriação e responsabilização pelo património.

Por recursos culturais e patrimoniais do território, da comunidade e dos seus membros entendem-se: estruturas, pessoas, saberes, bens patrimoniais materiais e imateriais. Assumindo-se desta forma como como suporte, pretexto e matéria-prima para a pedagogia desejada.

Por estruturas entende-se potenciais locais de actuação como museus, bibliotecas, centros culturais, associações, monumentos, espaços de exterior, entre outros. Através das pessoas retemos memórias, experiências, competências diversas, motivações sociais ou outras que as tornem, acima de tudo, disponíveis na participação e partilha.

Os bens patrimoniais materiais e imateriais permitem a observação, o contacto, o conhecimento do meio, a análise, a aprendizagem e identidade. Remetem-nos para memórias, tradições e costumes, apelando à sensibilidade e sentimentos que ilustram diferenças entre pessoas e grupos, permitindo o fortalecimento de identidades e o respeito pela diversidade, contribuindo assim para o desenvolvimento de espirito de tolerância e de valorização sobre a multiplicidade de formas e expressões, em que a cultura se manifesta.

É na experiencia com os bens patrimoniais que reside o principio básico da educação patrimonial. A partir desse contacto capacitamo-nos para um melhor usufruto desses bens, para a sua compreensão, conduzindo à concepção de novos conhecimentos.

De forma consequente, o conhecimento crítico leva à apropriação consciente por parte do individuo do seu património e, em última instância, à sua responsabilização.

O conhecimento, a apropriação e responsabilização assumem-se desta forma como factores indispensáveis, por um lado ao fortalecimento dos sentimentos de identidade e de cidadania e, por outro, na preservação sustentável dos bens patrimoniais.

Temos assim a educação patrimonial como instrumento de “alfabetização cultural” que possibilita ao individuo fazer a leitura do mundo que o rodeia, levando-o à compreensão do universo sociocultural e da história em que está inserido, potenciando a auto-estima e a valorização da cultura.

O papel social dos museus é no presente focado numa relação entre museu/público, não apenas aquele que contempla, mas assumindo-se antes como uma relação de partilha de saberes e experiencias entre ambas as partes. Aqui reside a base do papel educativo do museu, que assenta no processo reflexivo provocado em cada visita, através da aquisição de conhecimento, e na valorização de uma interacção onde o educando será preponderante, tal como o educador.

Dora Mendes

A designação de “Cura Termal” é utilizada a partir da segunda metade do século XIX, especialmente em França, por influência alemã da palavra Kure. O conceito associado refere-se a um período necessário para fazer um tratamento com água termal, que implica a permanência no local de existência das águas termais.

Aos “banhos” e às termas estiveram sempre associadas práticas que oscilaram ambiguamente entre a cura do corpo e o prazer, é nesta medida que a deslocação às termas é apontada por Armando Narciso (1994) – médico hidrologista – como o primeiro movimento turístico da viagem “da cura pelo prazer”.

No período renascentista, onde se insere a fundação do Hospital de Nossa Senhora do Pópulo, é apenas à dimensão da cura que se pretende dar enfase, ligando-a à esfera religiosa. Esta ligação, que confere às instituições termais da época um vinculo marcadamente religioso, manifesta na componente da Assistência Espiritual um dos factores mais importantes para o alcance da cura do doente.

A partir do século XVIII, assiste-se a um reabilitar das termas pela aristocracia, com as idas da corte a banhos, sendo este movimento acompanhado por uma mudança no paradigma do termalista.

Ir a águas” ou “ir a banhos”, acompanha assim uma transformação na forma de conceber as termas, deixa-se de ir apenas em busca das águas como único agente terapêutico e motivação primeira para uma deslocação, passado a cura a estar associada a outras dimensões.

A prescrição da “cura termal” estava assim associada á necessidade de “mudança de ares”, a qual implicava uma viagem. A importância desta viagem, tal como afirma Ramalho Ortigão na sua obra “Banhos de Caldas e Águas Minerais”, residia sobretudo na introdução de uma mudança da vida quotidiana, o que era mais facilmente conseguida através da viagem, considerada por si só um factor importante do tratamento, ou mesmo o seu primeiro momento.

A “mudança de ares” consistia, sobretudo para aqueles que viviam nas cidades, numa deslocação até ao campo, a qual gerou até uma nova forma de calendarização anual – a vilegiatura.

Vários autores escreveram sobre a vida nas termas no século XIX e inícios do século XX enfatizando a vertente lúdica, a procura do repouso e dos divertimentos, ressaltando até o papel preponderante do jogo e dos casinos no desenvolvimento destes lugares. Philys Hemphry é disso exemplo quando se refere, em 1815, ao conceito de “thakinga the cure”, que provocava nos visitantes das termas uma atracção maior pelos divertimentos sociais ai existentes do que propriamente pela busca da saúde.

As termas das Caldas não foram excepção a estas mudanças, sendo a Mata e o Parque locais privilegiados que proporcionavam aos aquistas a possibilidade de preencher as horas livres, ou complementar a sua recuperação, através de um conjunto de actividades físicas e desportivas que decorriam ao ar livre. Da mesma forma, o Club, sob um céu de vidro, respondia às necessidades de socialização durante a época termal.

Hugo Franco d’Araújo

«Thermas sem casino são thermas mortas, sem movimento e sem gente»[1].

Assim se traduzia, no início do século passado, a importância que a componente lúdica desempenhava nas estâncias termais, proporcionando aos seus frequentadores a possibilidade de preencher as horas de ócio e, até, de uma recuperação mais acelerada, considerando o conjunto de actividades físicas e desportivas que decorriam ao ar livre.

Nas Caldas, apesar de um aspecto assistencial reforçado, seguia-se igualmente esta tendência. Assim, a Mata e o Parque ofereciam espaço aos banhistas para a realização de actividades lúdicas, a céu aberto, enquanto o Clube, sob um «céo de vidro», respondia às necessidades de socialização durante a época termal.

Criado em 1837, o Club de Recreio tornara-se desde então o ponto de encontro da sociedade que ia a banhos nas Caldas, e nele eram admitidos os aquistas, a respectiva família e ainda outros convidados desde que, passando pela vila, ali se demorassem pouco tempo. Determinava o Regulamento que o Clube «se abrirá e fechará na mesma época em que se abrir e fechar o Hospital», funcionando todos os dias, entre Maio e Outubro, a partir das sete horas da manhã[2].

A oferta de lazer correspondia aos gostos e hábitos das primeiras décadas de novecentos. Nos seus salões tinham lugar jogos de cartas, como o whist, o bridge ou o voltarete, de tabuleiro, caso do xadrez, gamão ou damas, com espaço ainda para uma sala de bilhar e uma biblioteca. Na sala de baile, onde a noite atingia o ponto alto, existiam dois pianos, destinando-se um deles para concertos e outro para acompanhar os cotillons «as quadrilhas nas noites de baile» e uso dos «assignantes prendados»[3]. Na galeria central, que separava o gabinete do bilhar dos restantes espaços, coberta pela estrutura em ferro e vidro que lhe deu o nome, reunia-se a sociedade, lendo jornais, conversando, tomando chá e seguindo a velha máxima de «ver e ser visto».

O bem-estar dos seus utilizadores era assegurado por um conjunto de nove funcionários, incluindo uma criada para auxiliar a toilette das senhoras.

Mesmo durante o inverno, o Clube continuava a ser o local preferido pela sociedade e nele se realizavam os bailes de Carnaval, aos quais concorriam «as principais famílias desta vila»[4]. E se este era por excelência o espaço de convívio, o «fórum caldense», como lhe chamaram em 1910, os espaços verdes que o circundavam funcionavam como um prolongamento das salas, dando continuidade ao propósito de entreter os que faziam uso das águas.

O Parque, embora de acesso menos restrito que o Clube, encontrava-se igualmente sujeito a um conjunto de normas que deviam observar-se para o seu bom funcionamento. Durante o inverno os portões encerravam antes do anoitecer mas, na estação balnear, o período de abertura estendia-se até à meia-noite, sendo a entrada no recinto proibida aos indivíduos que «se não apresentarem decentemente vestidos, ou que manifestem indícios de embriaguez ou de loucura», aos que «tenham praticado actos dignos de censura», a mendigos e também a animais domésticos sem trela ou açaime[5].

Para além das áleas e dos relvados, o jardim dispunha de uma carreira de tiro, um recinto de patinagem e áreas destinadas à prática de diversos sports, entre os quais a patinagem, o ténis, o cricket, a malha e o ainda incipiente foot-ball. Outro dos atractivos passava pela possibilidade de alugar um bote e remar, sob o arvoredo frondoso, nas águas tranquilas do lago. Finalmente, o velódromo, erguido logo no início da administração Cymbron, na «epoca em que o cyclismo era o genero de sport mais cultivado em Portugal» destinava-se a «concursos cyclicos» que rapidamente, ao que parece, ficaram fora de moda[6].

No verão, montavam-se no Parque quiosques para a venda de refrescos e tabacos e pequenas barracas para jogos, teatro ou venda de quinquilharias. O terreno era cedido pelo Hospital, ao custo de 1$000 réis por metro quadrado, mas até mesmo estas concessões não livraram o Director do envolvimento em polémicas que resvalaram para as páginas dos jornais. Quando, em Julho de 1909, querendo José Leandro «armar a barraca», como ele e o sogro vinham fazendo há vários anos no mesmo local, e «foi-lhe respondido que o terreno a que alludia já tinha sido concedido, e portanto que pedisse outro», o episódio foi divulgado em numerosos jornais, servindo de veículo para renovadas acusações contra a direcção do Hospital. Curiosamente, esse mesmo José Leandro dos Santos Pereira era proprietário dos Echos das Caldas, periódico que atacava com frequência, por divergências políticas, a administração de Cymbron[7].

As tardes de Agosto e Setembro eram animadas com música ao ar livre, executada por uma banda militar, normalmente a da Guarda Municipal de Lisboa. Durante duas ou três horas, todos os dias, os músicos executavam um repertório composto por marchas, valsas e sinfonias. Em 1912, por exemplo, a execução das melodias coube, não à banda da Guarda, mas à do Regimento de Infantaria 1 que, pelo valor de 1.565$900 réis, tocou as peças mais apreciadas pelo público naquelas tardes de estio.

Durante essa época, o Clube também reforçava os programas musicais. Em 1909, Cymbron «contractou um magnifico quintetto, dirigido pelo notável professor sr. Palmiro»[8] e três anos depois foi a vez de um sexteto deleitar as damas e os cavalheiros que frequentavam o Céu de Vidro ao som de Mendelssohn, Schumann e Wagner.

À noite, quando o característico clima caldense o permitia, organizavam-se festas de recreio ou beneficência, com entrada paga e regras de admissão mais restritas. Com a electricidade instalada Parque desde 1904, as iluminações eram o principal ex-líbris destes eventos. As celebrações de 15 de Maio de 1913 incluíam, às 21 horas, uma «deslumbrante iluminação eléctrica na rua central do Parque Rainha D. Leonor, e fogo-de-artifício na encosta do pinhal»[9]. Noutra ocasião, os barcos que flutuavam no lago decoraram-se com balões venezianos, criando «um efeito bastante apreciado».

Outros eventos animavam ainda o calendário termal. Exposições, de que a mostra, em 1908, de  louças de Bordalo Pinheiro nos Pavilhões é exemplo, pequenos espectáculos de teatro e variedades, concursos, regatas no lago, torneios e ainda quermesses e bazares, como o que se organizou, logo nos primeiros anos da república, a favor da Cantina Escolar da vila, sucediam-se com frequência, transformando o Parque num dos lugares mais concorridos das Caldas.

Bem menos agitada, «povoada de grande variedade de árvores, com as suas ruas e carreiros atapetados de musgo» e «uma formosa alameda de plátanos», a Mata constituía outra grande zona verde ao dispor dos aquistas[10]. Obra de Berquó, ali dispunham os convalescentes de maior serenidade para os seus passeios, entre o murmurar da vegetação e o silêncio das pequenas clareiras.

Por outro lado, a Mata era palco de alguns eventos significativos da época termal. Exemplo disso era hipódromo, uma vasta área perto da alameda principal onde se realizavam, todos os anos, diversas provas hípicas que constituíam um importante momento na vida social caldense. Organizado por iniciativa do Conde de Fontalva, o torneio hípico realizava-se no começo de Setembro e contava com a presença de nomes ilustres onde se incluíam, até 1910, os membros da família real. Em 1908 já D. Manuel, ainda infante, assistira a vários «jogos sportivos» e em 1909 foi seu tio, D. Afonso, quem esteve nas Caldas «afim de assistir às duas ultimas provas do concurso hippico»[11]. No ano seguinte viria até a presidir ao júri da competição, que contaria novamente com a presença de D. Manuel, desta vez já na qualidade de monarca.

As provas hípicas de 1910 foram, por isso, largamente divulgadas na imprensa, mesmo na estrangeira e em particular na espanhola. O concurso estendeu-se por vários dias, tendo lugar, no primeiro, a prova de ensaio e o concurso de «carros d’aluguer». Da prova nacional, disputada a 4 de Setembro, saiu vencedor o tenente Jara de Carvalho, a quem coube um prémio de 150$000 réis. Ainda nesse dia, realizaram-se as provas de discípulos e de amazonas, a par da «Taça Conde Fontalva», um campeonato de ténis cujo vencedor foi, pelo segundo ano consecutivo, D. João de Macedo. No dia seguinte foi a vez das provas omnium e de campinos e do «grande prémio das Caldas da Rainha», este último atribuído novamente a Jara de Carvalho, que recebeu assim mais 350$000 réis. O concurso deu-se por encerrado perto das 17 horas. Por fim, no dia 6, organizou-se uma tourada, onde cavalos e touros dividiram o protagonismo.

Embora o hipismo fosse uma das actividades com mais destaque, a Mata era também o lugar de um torneio de tiro aos pombos, a «Taça D. Manuel», que em 1909 foi entregue ao «distincto sportsman» Brandão de Melo.

As cerimónias de entrega dos troféus decorriam nas salas do Clube e, estando a sua organização da administração hospitalar, era frequente a inscrição de verbas suplementares no orçamento da instituição para que esses prémios pudessem ser atribuídos aos vencedores.

Durante o Inverno, a Mata tornava-se um sítio bem mais bucólico, sob o céu nublado e o restolhar das folhas caídas. Por essa razão, fora da época balnear, os seus portões encerravam antes do pôr-do-sol.

Todavia, com semelhante rol de eventos durante a época de verão, não é de estranhar que o Club de Recreio, o Parque e a Mata constituíssem local obrigatório da sociedade caldense e dos seus hóspedes, fornecendo a maioria da oferta lúdica de que a vila dispunha.

Mesmo o cinema, que por aqui havia dado os primeiros passos no início do século, se encontrava instalado numa dependência do Hospital. Com efeito, surge em 1907 um pedido para a instalação de uma sala de projecção na Casa da Convalescença, propondo-se ao Hospital que ficasse com 10% das receitas obtidas com as matinées. Dois anos depois, o Animatographo Colossal instalado e em pleno funcionamento, exibia filmes «de grande sensação», como «Os terremotos na Italia», pelo preço de (…).

O Teatro Pinheiro Chagas, o Cyclo-Club e a Praça de Touros, a que se podem acrescentar os principais hotéis, eram os restantes pólos de animação na vila das Caldas.

O palco do Pinheiro Chagas procurava de facto dar resposta a uma necessidade que nenhum outro espaço conseguia suprimir. Inaugurada a 16 de Setembro de 1901 com um espectáculo amador que revertia a favor dos bombeiros, da banda da Guarda Municipal e do próprio Teatro, a sala possuía duas ordens de camarotes, 160 fauteils e mais 150 lugares de superior e geral[12]. Nela actuou, em 1909, uma «troupe d’artistas do Theatro D. Amelia» cujo repertório se compunha, por exemplo, «da engraçada revista em 1 acto Salão do Thesouro Velho» e já em 1913 seria a vez de uma companhia do Teatro do Ginásio ser aplaudida pelos caldenses.

Quanto às touradas, «só em 15 de Agosto se vê enchente à cunha, uns festejos por ocasião da vinda aqui de Suas Magestades e mais nada»[13].

O Cyclo-Club abria, desde 1 de Outubro de 1908, as suas salas aos amantes do sport, organizando uma tuna e passeios a várias localidades, entre elas Alcobaça, onde os associados poderiam «visitar o Mosteiro e fabricas d’aquella importante e laboriosa villa»[14].

Aos hotéis e pensões, como o Lisbonense ou o da Copa, cabia então alojar aqueles que podiam usufruir de todos estes divertimentos e gozar de uma estadia confortável enquanto estivessem a banhos. A questão menos favorável ao bem-estar dos aquistas aí hospedados parecia ser a das dietas que, constituindo preciosos auxiliares do tratamento termal, eram absolutamente ignoradas nos menús dos restaurantes..

A melhor alternativa aos programas habituais dos aquistas era a de fazer pequenos passeios aos arrabaldes da vila, como Foz do Arelho ou Salir, mas também a Óbidos ou Alcobaça. Em Salir, os excursionistas visitavam «um forte castello de que ainda restam ruínas no cimo d’um monte» e daí gozavam do «panorama delicioso e bello [que] é a formosa Bahia de S. Martinho»[15].

A Foz do Arelho começava, entretanto, a atrair as atenções de um maior número de banhistas. Apreciada pelas «excellentes condições climatericas» e pelas características da sua implantação, chegou mesmo a recomendar-se a instalação de um sanatório nas suas proximidades. Figuras como o industrial Grandella ou o Conde de Almeida Araújo, demonstrando a sua preferência pelo local, contribuíram em muito para o desenvolvimento de toda a região. Prova de que a Foz se tornava cada vez mais frequentada eram as carreiras de automóvel, estabelecidas de 1 de Julho a 30 de Setembro que, de 40 em 40 minutos, transportam todos aqueles que desejassem tomar banhos de mar naquela praia. Se por um lado esta iniciativa motivou a reparação da estrada que a ligava à vila, justificava, por outro, a instalação que entretanto se fizera de uma garage na Casa da Convalescença gerida, portanto, pelo próprio Hospital Real.

Nas proximidades, a lagoa de Óbidos, «que se póde comparar com muitos lagos da Suissa, onde há lindos chalets» atraía igualmente o interesse dos visitantes.

Como se viu, era, apesar desta oferta mais pitoresca, em torno do Hospital e do Clube que se concentravam os principais eventos e diversões das Caldas. Mesmo que a vida do Hospital se sustentasse nas «qualidades e renome das thermas e não no brilho das suas diversões», a verdade é que o «Céo de Vidro» e todos os que sob ele se distraíam, procurando esquecer as «agruras do rheumatismo», se havia tornado há muito um símbolo do microcosmos social que aqui se formava durante a época termal[16].

Os tempos foram mudando e o centenário edifício do Club de Recreio permaneceu, depois de albergar uma efémera Casa da Cultura, longos anos abandonado. Hoje, sob a recuperada abóbada de vidro, mesmo que não possa reviver os velhos tempos evoca, ao menos, diante do velho Hospital que lhe deu razão de ser, o espírito da belle époque que, volvidos cem anos, se desvaneceu lentamente na memória desvanecida das termas da Rainha e da República.


[1] Relatório da commissão nomeada pela portaria de 30 de Agosto de 1907…, Appendice ao Diario do Governo, n. 440, de 29 de Outubro de 1910, p. 8

[2] Regulamento do Club de Recreio, art. 1º

[3] Idem, art. 9

[4] Ofício n. 8, de  20 de Janeiro de 1910,

[5] Regulamento do Parque D. Carlos I e Matta, MHC-HDL, pasta A01, doc. XIV

[6] Syndicancia aos actos administrativos da Direcção do Hospital Real das Caldas da Rainha, Appendice ao Diario do Governo, n. 456, de 28 de Outubro de 1908, p. 3

[7] Echos das Caldas,de 5 de Julho de 1909

[8] O Circulo das Caldas, de 30 de Maio de 1909

[9] O Circulo das Caldas, de 14 de Maio de 1913

[10]O Occidente, de 30 de Agosto de 1911

[11] O Circulo das Caldas, de 3 de Setembro de 1909

[12] BASTOS, (…) Sousa, Diccionario do Theatro Portuguez, (…), 1908, p.353

[13] Cavacos das Caldas, de 15 de Setembro de 1896

[14] O Circulo das Caldas, de 30 de Maio de 1909

[15] Echos das Caldas, de 15 de Abril de 1909

[16] Relatório da commisão nomeada por portaria de 4 de Fevereiro de 1911…, Diário do Governo, nº 205, de 2 de Setembro de 1911

Grato pelo desafio partilho aqui esta reflexão sobre um tema que, como cidadão que procura acompanhar a cidade que me acolhe, me é particularmente sensível.

Ciente da vastidão de perspetivas possíveis assumo, como observador, a importância do impacto das estruturas museológicas na firmação da identidade de um território, seja ele geográfico, social, económico ou emocional.

A elas cabe não só, mas também, a responsabilidade da recolha, catalogação, preservação e construção da nossa memória coletiva pilar estruturante da nossa comunidade. Por conseguinte instrumento inquestionável de construção de coesão territorial. Aqui reside também o seu potencial como fonte de recursos criativos que pode e deve ser materializado no desenvolvimento de estratégias concretas. Estas, face às exigências e objetivos do seu posicionamento na sociedade atual desejavelmente decorrerão na execução de objetivos operacionais a concretizar no território.

O retorno à “Localidade” e a necessidade de reconexão aos valores do património como resultado dos processos de globalização criam novos caminhos, perspetivas de reflexão e responsabilidades aos espaços museológicos. Assim, novas possibilidades surgem, algumas desejadas, outras nem tanto. Os portões dos museus assumem novas formas e desmaterializam-se, digitalizam-se. Surgem novos paradigmas e a comunidade assume uma dimensão sem precedentes. Novos canais trazem uma diversidade de públicos os quais nunca pensámos atingir e a comunicação assume formatos e características de “tempo real”.

Expressões como “self”, “glocal”, “stakeholders”, “desenvolvimento sustentável”, “bem-estar”, “participação”, “economia circular”, “Green Deal” e “Transição digital” estão na ordem do dia e determinarão o futuro/presente das políticas Culturais e Criativas da nossa cidade. Urge por isso articular recursos e flexibilizar procedimentos para que no futuro possam também contar a nossa história.

Nicola Henriques

Fundador SILOS Contentor Criativo, Caldas da Rainha