O museu é um farol da consciência social, um historiador do futuro, uma muralha contra a escuridão e o desespero, e um templo de elevação do homem, e por isso, um museu precisa de dialogar com a sociedade”. Postman (1989)           

A citação de Postman é um bom ponto de partida para a reflexão do museu enquanto instituição ligada à Comunidade. O museu é antes de mais um espaço onde se contam histórias, onde através do estudo, e da investigação se procura conhecer um passado, que se aprende a respeitar e preservar. Falar de museu, é falar da construção de uma identidade cultural, que só será possível se as instituições museológicas cumprirem a sua função social e pedagógica. Neste sentido, será necessário estabelecer com a comunidade uma relação, tal como diz Postman, “um museu precisa de dialogar com a sociedade”, e através deste diálogo, estabelecer objectivos e metas, trocar experiências, que em conjunto conduzirão à reflexão e ao conhecimento.

O estabelecimento deste diálogo compreende várias etapas, as visitas guiadas pelo património do CHO, destinadas à comunidade em geral, e também às escolas, são um dos diversos exemplos que testemunham o desempenho do papel social e educativo do museu. A tarefa não se apresenta como fácil ou simples, e são diversos os obstáculos que vão surgindo, como o desconhecimento inicialmente verificado por parte da comunidade caldense, relativamente à existência do Museu do Hospital e das Caldas. Primeiramente, a tentativa para alterar esta situação foi a divulgação do Museu através da imprensa regional, onde foram apresentadas algumas das actividades que começaram a ser desenvolvidas pelo museu, nomeadamente a realização de exposições temporárias e outros eventos temáticos.

Uma outra forma de difusão do museu foi através das escolas da região, com as quais estabelecemos um contacto mais próximo, tendo obtido uma resposta surpreendente da parte das mesmas. Comprovámos que as medidas trouxeram resultados extremamente positivos, sendo que as escolas do 1º ciclo (nomeadamente 3º e 4º ano) tornaram-se visitantes regulares ao museu, com intuito de conhecer melhor o passado do meio em que vivem. A cada ano passado, verificou-se um aumento das escolas que visitaram o museu, e que realizaram as actividades que foram disponibilizadas.

Ao longo dos anos tem sido uma preocupação constante do museu, o desenvolvimento de actividades que se adaptem aos vários tipos de público, e que estimulem e despertem o interesse no património e história da cidade de Caldas da Rainha. No que toca aos mais pequenos por exemplo: realizámos o Pedddy Paper, para descobrirem o museu, as actividades de férias escolares (atelier de fantoches, atelier de ciência viva…), realizadas no museu, entre outras dinâmicas de grupo disponibilizadas ao longo do ano lectivo, geradas como complemento das visitas guiadas (se eu fosse rainha/rei; se eu fosse uma gotinha de água termal…). Os projectos desenvolvidos pelos Serviços Educativos do museu permitiram estabelecer uma relação de proximidade com o seu público mais jovem, no sentido de educar e, facultar a esse público os instrumentos necessários para crescerem e se conhecerem a si próprios, porque só assim, poderão de forma crítica e criativa construir a sua identidade cultural.

O Museu do Hospital e das Caldas procurou continuar a dialogar com a sua comunidade, estabelecer uma interacção permanente com o seu público, de forma a possibilitar uma participação activa de todos. A concretização deste ideal passa pela preocupação constante de divulgar e desenvolver novos projectos, tais como os que são disponibilizados pelos Serviços Educativos do museu. 

Paralelamente a esta preocupação de estimular os mais jovens, no que toca à valorização e preservação do património, através do reconhecimento da sua importância, surge também a necessidade de motivar a restante comunidade e envolvê-la no espaço e nas acções museológicas. A realização de exposições temporárias diversas, com temáticas relacionadas com o Hospital Termal, com a cidade e sua evolução ao longo dos tempos, o convite para visitas temáticas, realização de conferências, espectáculos entre outros, foram propostas sistematicamente disponibilizadas pelo museu e dirigidas ao público em geral que tivesse o desejo de conhecer um pouco mais sobre a história e património das Caldas da Rainha. No intuito de que se envolvessem as famílias, e que as várias gerações se tornassem participantes activos e em interacção.

As reacções a este tipo de iniciativas desenvolvidas pelo museu, foram sempre muito positivas, o público interveniente procura demonstrar o seu agradado, sendo a opinião dos visitantes unânime relativamente ao interesse das visitas realizadas, e à importância das mesmas para um melhor conhecimento das Caldas da Rainha e suas origens, de tal forma que expressam a necessidade prosseguimento destes e a realização de novos projectos.

Numa fase como a que estamos a viver, com todas as implicações e impacto que tem causado em todas as áreas, não podemos resignar, é necessário reflectir e perspectivar o futuro, mantendo a resiliência. O Museu do Hospital e das Caldas mantem o seu propósito, continuar a sua missão, cumprindo as suas funções social e pedagógica, sendo para isso essencial estabelecer o intercâmbio com a sua comunidade, assumindo-se como espaço onde se ensina, mas onde também se aprende, porque só tendo como base esta relação podemos ser um museu dinâmico e vivo, que acompanha a sua comunidade na construção/reconstrução da sua identidade cultural. Um museu que conta histórias de um passado e que nos prepara para construirmos a história do futuro, tal como diz Postman o museu é também “um historiador do futuro, uma muralha contra a escuridão e o desespero…”.

A educação patrimonial é uma metodologia que procura criar conhecimento através dos bens culturais, objectivando a valorização da história de cada individuo por extensão à sua história local, a par da identificação, valorização e consequente conservação sustentada do património no geral.

Trata-se assim de um processo permanente e sistemático de trabalho educacional, centrado no património cultural como fonte primária de conhecimento e enriquecimento individual e colectivo.

Olhar criticamente, aplicando a educação patrimonial na sua paisagem quotidiana como um objecto de estudo, é estar sensível ao facto de que assim se sintetizam propostas de intervenções sociais, politicas, económicas, culturais, tecnológicas e naturais, de diferentes épocas, num diálogo entre tempos, partindo do presente. “

Moema Nascimento Queiroz

Objectiva-se desenvolver nos educandos uma análise crítica do seu contexto histórico-social, fortalecendo consciência do seu papel na sociedade, potenciando a sua participação cívica através da apropriação e responsabilização pelo património.

Por recursos culturais e patrimoniais do território, da comunidade e dos seus membros entendem-se: estruturas, pessoas, saberes, bens patrimoniais materiais e imateriais. Assumindo-se desta forma como como suporte, pretexto e matéria-prima para a pedagogia desejada.

Por estruturas entende-se potenciais locais de actuação como museus, bibliotecas, centros culturais, associações, monumentos, espaços de exterior, entre outros. Através das pessoas retemos memórias, experiências, competências diversas, motivações sociais ou outras que as tornem, acima de tudo, disponíveis na participação e partilha.

Os bens patrimoniais materiais e imateriais permitem a observação, o contacto, o conhecimento do meio, a análise, a aprendizagem e identidade. Remetem-nos para memórias, tradições e costumes, apelando à sensibilidade e sentimentos que ilustram diferenças entre pessoas e grupos, permitindo o fortalecimento de identidades e o respeito pela diversidade, contribuindo assim para o desenvolvimento de espirito de tolerância e de valorização sobre a multiplicidade de formas e expressões, em que a cultura se manifesta.

É na experiencia com os bens patrimoniais que reside o principio básico da educação patrimonial. A partir desse contacto capacitamo-nos para um melhor usufruto desses bens, para a sua compreensão, conduzindo à concepção de novos conhecimentos.

De forma consequente, o conhecimento crítico leva à apropriação consciente por parte do individuo do seu património e, em última instância, à sua responsabilização.

O conhecimento, a apropriação e responsabilização assumem-se desta forma como factores indispensáveis, por um lado ao fortalecimento dos sentimentos de identidade e de cidadania e, por outro, na preservação sustentável dos bens patrimoniais.

Temos assim a educação patrimonial como instrumento de “alfabetização cultural” que possibilita ao individuo fazer a leitura do mundo que o rodeia, levando-o à compreensão do universo sociocultural e da história em que está inserido, potenciando a auto-estima e a valorização da cultura.

O papel social dos museus é no presente focado numa relação entre museu/público, não apenas aquele que contempla, mas assumindo-se antes como uma relação de partilha de saberes e experiencias entre ambas as partes. Aqui reside a base do papel educativo do museu, que assenta no processo reflexivo provocado em cada visita, através da aquisição de conhecimento, e na valorização de uma interacção onde o educando será preponderante, tal como o educador.

Dora Mendes

A designação de “Cura Termal” é utilizada a partir da segunda metade do século XIX, especialmente em França, por influência alemã da palavra Kure. O conceito associado refere-se a um período necessário para fazer um tratamento com água termal, que implica a permanência no local de existência das águas termais.

Aos “banhos” e às termas estiveram sempre associadas práticas que oscilaram ambiguamente entre a cura do corpo e o prazer, é nesta medida que a deslocação às termas é apontada por Armando Narciso (1994) – médico hidrologista – como o primeiro movimento turístico da viagem “da cura pelo prazer”.

No período renascentista, onde se insere a fundação do Hospital de Nossa Senhora do Pópulo, é apenas à dimensão da cura que se pretende dar enfase, ligando-a à esfera religiosa. Esta ligação, que confere às instituições termais da época um vinculo marcadamente religioso, manifesta na componente da Assistência Espiritual um dos factores mais importantes para o alcance da cura do doente.

A partir do século XVIII, assiste-se a um reabilitar das termas pela aristocracia, com as idas da corte a banhos, sendo este movimento acompanhado por uma mudança no paradigma do termalista.

Ir a águas” ou “ir a banhos”, acompanha assim uma transformação na forma de conceber as termas, deixa-se de ir apenas em busca das águas como único agente terapêutico e motivação primeira para uma deslocação, passado a cura a estar associada a outras dimensões.

A prescrição da “cura termal” estava assim associada á necessidade de “mudança de ares”, a qual implicava uma viagem. A importância desta viagem, tal como afirma Ramalho Ortigão na sua obra “Banhos de Caldas e Águas Minerais”, residia sobretudo na introdução de uma mudança da vida quotidiana, o que era mais facilmente conseguida através da viagem, considerada por si só um factor importante do tratamento, ou mesmo o seu primeiro momento.

A “mudança de ares” consistia, sobretudo para aqueles que viviam nas cidades, numa deslocação até ao campo, a qual gerou até uma nova forma de calendarização anual – a vilegiatura.

Vários autores escreveram sobre a vida nas termas no século XIX e inícios do século XX enfatizando a vertente lúdica, a procura do repouso e dos divertimentos, ressaltando até o papel preponderante do jogo e dos casinos no desenvolvimento destes lugares. Philys Hemphry é disso exemplo quando se refere, em 1815, ao conceito de “thakinga the cure”, que provocava nos visitantes das termas uma atracção maior pelos divertimentos sociais ai existentes do que propriamente pela busca da saúde.

As termas das Caldas não foram excepção a estas mudanças, sendo a Mata e o Parque locais privilegiados que proporcionavam aos aquistas a possibilidade de preencher as horas livres, ou complementar a sua recuperação, através de um conjunto de actividades físicas e desportivas que decorriam ao ar livre. Da mesma forma, o Club, sob um céu de vidro, respondia às necessidades de socialização durante a época termal.

Hugo Franco d’Araújo

«Thermas sem casino são thermas mortas, sem movimento e sem gente»[1].

Assim se traduzia, no início do século passado, a importância que a componente lúdica desempenhava nas estâncias termais, proporcionando aos seus frequentadores a possibilidade de preencher as horas de ócio e, até, de uma recuperação mais acelerada, considerando o conjunto de actividades físicas e desportivas que decorriam ao ar livre.

Nas Caldas, apesar de um aspecto assistencial reforçado, seguia-se igualmente esta tendência. Assim, a Mata e o Parque ofereciam espaço aos banhistas para a realização de actividades lúdicas, a céu aberto, enquanto o Clube, sob um «céo de vidro», respondia às necessidades de socialização durante a época termal.

Criado em 1837, o Club de Recreio tornara-se desde então o ponto de encontro da sociedade que ia a banhos nas Caldas, e nele eram admitidos os aquistas, a respectiva família e ainda outros convidados desde que, passando pela vila, ali se demorassem pouco tempo. Determinava o Regulamento que o Clube «se abrirá e fechará na mesma época em que se abrir e fechar o Hospital», funcionando todos os dias, entre Maio e Outubro, a partir das sete horas da manhã[2].

A oferta de lazer correspondia aos gostos e hábitos das primeiras décadas de novecentos. Nos seus salões tinham lugar jogos de cartas, como o whist, o bridge ou o voltarete, de tabuleiro, caso do xadrez, gamão ou damas, com espaço ainda para uma sala de bilhar e uma biblioteca. Na sala de baile, onde a noite atingia o ponto alto, existiam dois pianos, destinando-se um deles para concertos e outro para acompanhar os cotillons «as quadrilhas nas noites de baile» e uso dos «assignantes prendados»[3]. Na galeria central, que separava o gabinete do bilhar dos restantes espaços, coberta pela estrutura em ferro e vidro que lhe deu o nome, reunia-se a sociedade, lendo jornais, conversando, tomando chá e seguindo a velha máxima de «ver e ser visto».

O bem-estar dos seus utilizadores era assegurado por um conjunto de nove funcionários, incluindo uma criada para auxiliar a toilette das senhoras.

Mesmo durante o inverno, o Clube continuava a ser o local preferido pela sociedade e nele se realizavam os bailes de Carnaval, aos quais concorriam «as principais famílias desta vila»[4]. E se este era por excelência o espaço de convívio, o «fórum caldense», como lhe chamaram em 1910, os espaços verdes que o circundavam funcionavam como um prolongamento das salas, dando continuidade ao propósito de entreter os que faziam uso das águas.

O Parque, embora de acesso menos restrito que o Clube, encontrava-se igualmente sujeito a um conjunto de normas que deviam observar-se para o seu bom funcionamento. Durante o inverno os portões encerravam antes do anoitecer mas, na estação balnear, o período de abertura estendia-se até à meia-noite, sendo a entrada no recinto proibida aos indivíduos que «se não apresentarem decentemente vestidos, ou que manifestem indícios de embriaguez ou de loucura», aos que «tenham praticado actos dignos de censura», a mendigos e também a animais domésticos sem trela ou açaime[5].

Para além das áleas e dos relvados, o jardim dispunha de uma carreira de tiro, um recinto de patinagem e áreas destinadas à prática de diversos sports, entre os quais a patinagem, o ténis, o cricket, a malha e o ainda incipiente foot-ball. Outro dos atractivos passava pela possibilidade de alugar um bote e remar, sob o arvoredo frondoso, nas águas tranquilas do lago. Finalmente, o velódromo, erguido logo no início da administração Cymbron, na «epoca em que o cyclismo era o genero de sport mais cultivado em Portugal» destinava-se a «concursos cyclicos» que rapidamente, ao que parece, ficaram fora de moda[6].

No verão, montavam-se no Parque quiosques para a venda de refrescos e tabacos e pequenas barracas para jogos, teatro ou venda de quinquilharias. O terreno era cedido pelo Hospital, ao custo de 1$000 réis por metro quadrado, mas até mesmo estas concessões não livraram o Director do envolvimento em polémicas que resvalaram para as páginas dos jornais. Quando, em Julho de 1909, querendo José Leandro «armar a barraca», como ele e o sogro vinham fazendo há vários anos no mesmo local, e «foi-lhe respondido que o terreno a que alludia já tinha sido concedido, e portanto que pedisse outro», o episódio foi divulgado em numerosos jornais, servindo de veículo para renovadas acusações contra a direcção do Hospital. Curiosamente, esse mesmo José Leandro dos Santos Pereira era proprietário dos Echos das Caldas, periódico que atacava com frequência, por divergências políticas, a administração de Cymbron[7].

As tardes de Agosto e Setembro eram animadas com música ao ar livre, executada por uma banda militar, normalmente a da Guarda Municipal de Lisboa. Durante duas ou três horas, todos os dias, os músicos executavam um repertório composto por marchas, valsas e sinfonias. Em 1912, por exemplo, a execução das melodias coube, não à banda da Guarda, mas à do Regimento de Infantaria 1 que, pelo valor de 1.565$900 réis, tocou as peças mais apreciadas pelo público naquelas tardes de estio.

Durante essa época, o Clube também reforçava os programas musicais. Em 1909, Cymbron «contractou um magnifico quintetto, dirigido pelo notável professor sr. Palmiro»[8] e três anos depois foi a vez de um sexteto deleitar as damas e os cavalheiros que frequentavam o Céu de Vidro ao som de Mendelssohn, Schumann e Wagner.

À noite, quando o característico clima caldense o permitia, organizavam-se festas de recreio ou beneficência, com entrada paga e regras de admissão mais restritas. Com a electricidade instalada Parque desde 1904, as iluminações eram o principal ex-líbris destes eventos. As celebrações de 15 de Maio de 1913 incluíam, às 21 horas, uma «deslumbrante iluminação eléctrica na rua central do Parque Rainha D. Leonor, e fogo-de-artifício na encosta do pinhal»[9]. Noutra ocasião, os barcos que flutuavam no lago decoraram-se com balões venezianos, criando «um efeito bastante apreciado».

Outros eventos animavam ainda o calendário termal. Exposições, de que a mostra, em 1908, de  louças de Bordalo Pinheiro nos Pavilhões é exemplo, pequenos espectáculos de teatro e variedades, concursos, regatas no lago, torneios e ainda quermesses e bazares, como o que se organizou, logo nos primeiros anos da república, a favor da Cantina Escolar da vila, sucediam-se com frequência, transformando o Parque num dos lugares mais concorridos das Caldas.

Bem menos agitada, «povoada de grande variedade de árvores, com as suas ruas e carreiros atapetados de musgo» e «uma formosa alameda de plátanos», a Mata constituía outra grande zona verde ao dispor dos aquistas[10]. Obra de Berquó, ali dispunham os convalescentes de maior serenidade para os seus passeios, entre o murmurar da vegetação e o silêncio das pequenas clareiras.

Por outro lado, a Mata era palco de alguns eventos significativos da época termal. Exemplo disso era hipódromo, uma vasta área perto da alameda principal onde se realizavam, todos os anos, diversas provas hípicas que constituíam um importante momento na vida social caldense. Organizado por iniciativa do Conde de Fontalva, o torneio hípico realizava-se no começo de Setembro e contava com a presença de nomes ilustres onde se incluíam, até 1910, os membros da família real. Em 1908 já D. Manuel, ainda infante, assistira a vários «jogos sportivos» e em 1909 foi seu tio, D. Afonso, quem esteve nas Caldas «afim de assistir às duas ultimas provas do concurso hippico»[11]. No ano seguinte viria até a presidir ao júri da competição, que contaria novamente com a presença de D. Manuel, desta vez já na qualidade de monarca.

As provas hípicas de 1910 foram, por isso, largamente divulgadas na imprensa, mesmo na estrangeira e em particular na espanhola. O concurso estendeu-se por vários dias, tendo lugar, no primeiro, a prova de ensaio e o concurso de «carros d’aluguer». Da prova nacional, disputada a 4 de Setembro, saiu vencedor o tenente Jara de Carvalho, a quem coube um prémio de 150$000 réis. Ainda nesse dia, realizaram-se as provas de discípulos e de amazonas, a par da «Taça Conde Fontalva», um campeonato de ténis cujo vencedor foi, pelo segundo ano consecutivo, D. João de Macedo. No dia seguinte foi a vez das provas omnium e de campinos e do «grande prémio das Caldas da Rainha», este último atribuído novamente a Jara de Carvalho, que recebeu assim mais 350$000 réis. O concurso deu-se por encerrado perto das 17 horas. Por fim, no dia 6, organizou-se uma tourada, onde cavalos e touros dividiram o protagonismo.

Embora o hipismo fosse uma das actividades com mais destaque, a Mata era também o lugar de um torneio de tiro aos pombos, a «Taça D. Manuel», que em 1909 foi entregue ao «distincto sportsman» Brandão de Melo.

As cerimónias de entrega dos troféus decorriam nas salas do Clube e, estando a sua organização da administração hospitalar, era frequente a inscrição de verbas suplementares no orçamento da instituição para que esses prémios pudessem ser atribuídos aos vencedores.

Durante o Inverno, a Mata tornava-se um sítio bem mais bucólico, sob o céu nublado e o restolhar das folhas caídas. Por essa razão, fora da época balnear, os seus portões encerravam antes do pôr-do-sol.

Todavia, com semelhante rol de eventos durante a época de verão, não é de estranhar que o Club de Recreio, o Parque e a Mata constituíssem local obrigatório da sociedade caldense e dos seus hóspedes, fornecendo a maioria da oferta lúdica de que a vila dispunha.

Mesmo o cinema, que por aqui havia dado os primeiros passos no início do século, se encontrava instalado numa dependência do Hospital. Com efeito, surge em 1907 um pedido para a instalação de uma sala de projecção na Casa da Convalescença, propondo-se ao Hospital que ficasse com 10% das receitas obtidas com as matinées. Dois anos depois, o Animatographo Colossal instalado e em pleno funcionamento, exibia filmes «de grande sensação», como «Os terremotos na Italia», pelo preço de (…).

O Teatro Pinheiro Chagas, o Cyclo-Club e a Praça de Touros, a que se podem acrescentar os principais hotéis, eram os restantes pólos de animação na vila das Caldas.

O palco do Pinheiro Chagas procurava de facto dar resposta a uma necessidade que nenhum outro espaço conseguia suprimir. Inaugurada a 16 de Setembro de 1901 com um espectáculo amador que revertia a favor dos bombeiros, da banda da Guarda Municipal e do próprio Teatro, a sala possuía duas ordens de camarotes, 160 fauteils e mais 150 lugares de superior e geral[12]. Nela actuou, em 1909, uma «troupe d’artistas do Theatro D. Amelia» cujo repertório se compunha, por exemplo, «da engraçada revista em 1 acto Salão do Thesouro Velho» e já em 1913 seria a vez de uma companhia do Teatro do Ginásio ser aplaudida pelos caldenses.

Quanto às touradas, «só em 15 de Agosto se vê enchente à cunha, uns festejos por ocasião da vinda aqui de Suas Magestades e mais nada»[13].

O Cyclo-Club abria, desde 1 de Outubro de 1908, as suas salas aos amantes do sport, organizando uma tuna e passeios a várias localidades, entre elas Alcobaça, onde os associados poderiam «visitar o Mosteiro e fabricas d’aquella importante e laboriosa villa»[14].

Aos hotéis e pensões, como o Lisbonense ou o da Copa, cabia então alojar aqueles que podiam usufruir de todos estes divertimentos e gozar de uma estadia confortável enquanto estivessem a banhos. A questão menos favorável ao bem-estar dos aquistas aí hospedados parecia ser a das dietas que, constituindo preciosos auxiliares do tratamento termal, eram absolutamente ignoradas nos menús dos restaurantes..

A melhor alternativa aos programas habituais dos aquistas era a de fazer pequenos passeios aos arrabaldes da vila, como Foz do Arelho ou Salir, mas também a Óbidos ou Alcobaça. Em Salir, os excursionistas visitavam «um forte castello de que ainda restam ruínas no cimo d’um monte» e daí gozavam do «panorama delicioso e bello [que] é a formosa Bahia de S. Martinho»[15].

A Foz do Arelho começava, entretanto, a atrair as atenções de um maior número de banhistas. Apreciada pelas «excellentes condições climatericas» e pelas características da sua implantação, chegou mesmo a recomendar-se a instalação de um sanatório nas suas proximidades. Figuras como o industrial Grandella ou o Conde de Almeida Araújo, demonstrando a sua preferência pelo local, contribuíram em muito para o desenvolvimento de toda a região. Prova de que a Foz se tornava cada vez mais frequentada eram as carreiras de automóvel, estabelecidas de 1 de Julho a 30 de Setembro que, de 40 em 40 minutos, transportam todos aqueles que desejassem tomar banhos de mar naquela praia. Se por um lado esta iniciativa motivou a reparação da estrada que a ligava à vila, justificava, por outro, a instalação que entretanto se fizera de uma garage na Casa da Convalescença gerida, portanto, pelo próprio Hospital Real.

Nas proximidades, a lagoa de Óbidos, «que se póde comparar com muitos lagos da Suissa, onde há lindos chalets» atraía igualmente o interesse dos visitantes.

Como se viu, era, apesar desta oferta mais pitoresca, em torno do Hospital e do Clube que se concentravam os principais eventos e diversões das Caldas. Mesmo que a vida do Hospital se sustentasse nas «qualidades e renome das thermas e não no brilho das suas diversões», a verdade é que o «Céo de Vidro» e todos os que sob ele se distraíam, procurando esquecer as «agruras do rheumatismo», se havia tornado há muito um símbolo do microcosmos social que aqui se formava durante a época termal[16].

Os tempos foram mudando e o centenário edifício do Club de Recreio permaneceu, depois de albergar uma efémera Casa da Cultura, longos anos abandonado. Hoje, sob a recuperada abóbada de vidro, mesmo que não possa reviver os velhos tempos evoca, ao menos, diante do velho Hospital que lhe deu razão de ser, o espírito da belle époque que, volvidos cem anos, se desvaneceu lentamente na memória desvanecida das termas da Rainha e da República.


[1] Relatório da commissão nomeada pela portaria de 30 de Agosto de 1907…, Appendice ao Diario do Governo, n. 440, de 29 de Outubro de 1910, p. 8

[2] Regulamento do Club de Recreio, art. 1º

[3] Idem, art. 9

[4] Ofício n. 8, de  20 de Janeiro de 1910,

[5] Regulamento do Parque D. Carlos I e Matta, MHC-HDL, pasta A01, doc. XIV

[6] Syndicancia aos actos administrativos da Direcção do Hospital Real das Caldas da Rainha, Appendice ao Diario do Governo, n. 456, de 28 de Outubro de 1908, p. 3

[7] Echos das Caldas,de 5 de Julho de 1909

[8] O Circulo das Caldas, de 30 de Maio de 1909

[9] O Circulo das Caldas, de 14 de Maio de 1913

[10]O Occidente, de 30 de Agosto de 1911

[11] O Circulo das Caldas, de 3 de Setembro de 1909

[12] BASTOS, (…) Sousa, Diccionario do Theatro Portuguez, (…), 1908, p.353

[13] Cavacos das Caldas, de 15 de Setembro de 1896

[14] O Circulo das Caldas, de 30 de Maio de 1909

[15] Echos das Caldas, de 15 de Abril de 1909

[16] Relatório da commisão nomeada por portaria de 4 de Fevereiro de 1911…, Diário do Governo, nº 205, de 2 de Setembro de 1911

Grato pelo desafio partilho aqui esta reflexão sobre um tema que, como cidadão que procura acompanhar a cidade que me acolhe, me é particularmente sensível.

Ciente da vastidão de perspetivas possíveis assumo, como observador, a importância do impacto das estruturas museológicas na firmação da identidade de um território, seja ele geográfico, social, económico ou emocional.

A elas cabe não só, mas também, a responsabilidade da recolha, catalogação, preservação e construção da nossa memória coletiva pilar estruturante da nossa comunidade. Por conseguinte instrumento inquestionável de construção de coesão territorial. Aqui reside também o seu potencial como fonte de recursos criativos que pode e deve ser materializado no desenvolvimento de estratégias concretas. Estas, face às exigências e objetivos do seu posicionamento na sociedade atual desejavelmente decorrerão na execução de objetivos operacionais a concretizar no território.

O retorno à “Localidade” e a necessidade de reconexão aos valores do património como resultado dos processos de globalização criam novos caminhos, perspetivas de reflexão e responsabilidades aos espaços museológicos. Assim, novas possibilidades surgem, algumas desejadas, outras nem tanto. Os portões dos museus assumem novas formas e desmaterializam-se, digitalizam-se. Surgem novos paradigmas e a comunidade assume uma dimensão sem precedentes. Novos canais trazem uma diversidade de públicos os quais nunca pensámos atingir e a comunicação assume formatos e características de “tempo real”.

Expressões como “self”, “glocal”, “stakeholders”, “desenvolvimento sustentável”, “bem-estar”, “participação”, “economia circular”, “Green Deal” e “Transição digital” estão na ordem do dia e determinarão o futuro/presente das políticas Culturais e Criativas da nossa cidade. Urge por isso articular recursos e flexibilizar procedimentos para que no futuro possam também contar a nossa história.

Nicola Henriques

Fundador SILOS Contentor Criativo, Caldas da Rainha

Historial, projecto e desenvolvimento

Paulo Henriques

Caldas da Rainha, Janeiro de 1997

(…)

Em cerca de cinco séculos de actividade o Hospital Termal foi engrandecendo o seu património construído, logo na rica Igreja de N. Senhora do Pópulo sucedida pelo edifício hospitalar com as suas magníficas piscinas, uma das quais dita ainda da Rainha, a sua mata extensa e o magnífico Parque D. Carlos I com magníficos pavilhões de finais do século XIX que a ambição megalómana de Rodrigo Berquó fez construir para outro hospital jamais ocupado com essa função.

Acima a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo situa-se o Palácio Real, austera construção ritmada pelo vão das portas e varandas, fachada regrada por frontão triangular com as armas reais e duas rampas de escada que, acedendo ao jardim, monumentalizam o edifício.

Conforme nos informa o Dr. Bonifácio Serra «Do edifício primitivo, ”casa real de onde assistiu a Rainha fundadora”, pouco restará, além da designação popular: Palácio da Rainha. No século XVIII as comitivas régias preferiram as melhores casas da vila, enquanto o Paço seria ocupado pelos provedores do Hospital. Rodrigo Berquó, em 1890, ordenou a edificação de uma nova casa para estes últimos, e empreendeu obras profundas no Palácio, que procurou devolver à sua função original. Com a República, posta em causa essa função, o edifício esteve cedido a diversas instituições públicas, como o tribunal da comarca, atingindo uma situação próxima da ruina».   

Foi este edifício escolhido pela administração do Centro Hospitalar como lugar do seu futuro Museu, onde se irão preservar e apresentar ao público os objectos que se reuniram ao longo de cinco séculos de existência da Instituição, que dela vão dando notícia permitindo documentar a sua história.

Para recuperar o edifício do Palácio Real a Administração do Centro Hospitalar formalizou a sua candidatura ao Prodiatec – Programa de Infra-Estruturas Turísticas e Equipamentos Culturais – financiado pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, e apresentou o projecto de recuperação do edifício da autoria do Sr. Arquitecto António Garcia dos Remédios que contemplava a reconstrução das coberturas, recuperação dos espaços interiores, regularização de outros, tratamento do espaço envolvente, dignificando o largo fronteiro ao edifício, articulando-o com novos espaços de lazer, equipados com zonas ajardinadas, alpendres, fontes e um pequeno hemiciclo ao ar livre.

O projecto arquitectónico foi aprovado em 1992 e a sua execução está actualmente quase completa, mantendo o edifício a expressão de residência nobre, nos seus espaços compartimentados, tectos de caixotes e tabuados, numerosas janelas abrindo-se ao exterior, portas e janelas pintadas a branco destacando-se dos diferentes vermelhões da parede.

O espólio que o Centro Hospitalar foi reunindo ao longo de cinco séculos da sua existência é constituído por Pintura, Escultura, Talha, Ourivesaria, Paramentaria, Azulejo, Documentos Gráficos, Mobiliário e instrumentos Médicos e Científicos.

Muitos dos objectos conservados foram equipamento da Igreja como são exemplo o notável conjunto de paramentaria quinhentista, ou a imaginária dos séculos XVII e XVIII, a par da talha e das alfaias litúrgicas oferecidas por D. João V, ou ainda a extensa série dos Reis de Portugal, saborosa iconografia dos monarcas pintada entre inícios do século XVII e finais do século XIX.

De qualidade desigual, a colecção equilibra-se com o acervo arquivístico e bibliográfico desde o Compromisso da Rainha D. Leonor de 1512, primeiro regulamento do Hospital até aos cartazes dos anos de 1930, documentando as vivências sociais de Caldas da Rainha, então recentemente elevada a cidade.   

Um primeiro trabalho de abordagem sistemática do espólio do hospital Termal foi realizado pelo Dr. João Saavedra Machado em 1980, então Director do Museu de José Malhoa, sucedendo-lhe um programa museológico realizado em 1982 pela Conservadora do Museu, Drª. Matilde Tomás do Couto, para um Museu da Cidade das Caldas da Rainha onde se propunha uma distribuição museográfica das peças por secções específicas da natureza dos objectos.

Em 1992 a Administração do Centro Hospitalar solicitou ao recém-criado Instituto Português de Museus apoio par ao projecto de Museu, tendo sido designado o Director do Museu de José Malhoa como coordenador do projecto, tendo a colaboração da Conservadora do mesmo Museu, Drª. Matilde Tomás do Couto, e da então Directora do Museu da Cerâmica, Drª. Nicole Ballu Loureiro, vindo a associar-se a Técnica Superior daquele Museu, Drª. Cristina Horta.

A análise do espólio a musealizar, assimétrico na sua qualidade e nos tempos históricos que cobria, e o enquadramento institucional do projecto do Museu, tornou claro o facto deste não se poder constituir como exclusivo museu de Arte, antes encontrando solidez programática na sua diversidade disciplinar como Museu de História de uma instituição e do lugar que à sua volta se gerou.

Assim e para um correcto delineamento do programa científico do Museu entendeu-se necessária a colaboração do grupo Património Histórico de Caldas da Rainha, notável núcleo de investigadores com trabalho na área da história local, que ficou representado pelo Dr. João Bonifácio Serra e a Drª. Margarida Gouveia.

Constituía-se assim a equipa de trabalho encarregada de estudar o programa do Museu, composta por profissionais da museologia e investigação histórica, a par do Administrador do Centro Hospitalar, Dr. Mário Gonçalves, grande impulsionador deste projecto que o entendeu não só como dever institucional mas também cívico, perante a população de Caldas da Rainha. Ficou definido o tipo de museu a instalar, de História, o seu âmbito, a história do Hospital Termal como centro irradiador do desenvolvimento das Caldas da Rainha, e a sua designação – Museu do Hospital e das Caldas.

Inaugurava-se a 20 de Maio de 1993 no edifício ainda não totalmente recuperado do Palácio Real uma primeira exposição temporária «O palácio Real e o seu futuro Museu» e aí, além de textos e fotografias documentando as obras de recuperação do imóvel, apresentou-se a estrutura do futuro Museu em painéis explicativos acompanhados por algumas peças de colecção distribuídas segundo sete núcleos definidos no programa científico, tratado cada um por seu autor:

  1. Antes da Fundação (século XIII-XV) – Drª. Helena Gonçalves Pinto
  2. A Fundação: Hospital, Igreja, Vila (1484-1532) – Drª. Matilde Tomás do Couto
  3. A rainha D. Leonor (1485-1525) – Drª. Matilde Tomás do Couto
  4. O tempo dos Lóios (1532-1706) – Drª. Margarida Gouveia
  5. O século das Reformas (1706 – 1820) – Drª. Cristina Horta
  6. As Termas da moda (1820-1930) – Arq. Jorge Mangorrinha
  7. Crise. À procura de um novo modelo (1930-…) – Dr. Luís Nuno Rodrigues

Dava-se uma primeira realidade física ao projecto de museu que, tornando público o espólio riquíssimo do Hospital Termal, contava através dele a história do lugar, contribuindo assim para a consolidação da memória colectiva da população.

Delineado o discurso museológico era preciso agora traçar a sua existência através do programa do Museu, adequando-o ao edifício já recuperado, debruçando-nos sobre a colecção, e planeando a exposição permanente.

(…)

O Museu do Hospital e das Caldas vem colmatar a lacuna de um espaço de preservação e estudo da memória antiga da cidade e que coube em herança patrimonial ao actual Centro Hospitalar das Caldas da Rainha. No actual panorama museológico nacional encontramos paralelo programático com outros museus de radiação local que pretendem fazer permanecer a memória dos sítios e das suas gentes, de que o Museu da Cidade de Lisboa pode ser o exemplo mais próximo e evidente.

Este novo Museu não deve contudo fechar-se em si, mas sim abrir-se à cidade, enquanto instituição que dela pretende guardar a memória, tornando-a presente não só pelas suas actividades próprias, reflectindo sobre o sentido e o destino do lugar, transformando-se em ponto de partida para itinerários pelas zonas históricas, de modo que o próprio património construído passe a ser visto como prolongamento do Museu.

De facto, e cumprindo a sua função primeira, o maior conhecimento e desenvolvimento do individuo e da sociedade pela consagração de valores de cultura e humanidade, o Museu do Hospital e das Caldas deverá funcionar não só como lugar de recolha, preservação, estudo, apresentação e divulgação de um património móvel e de uma memória histórica local, mas também como lugar aa partir do qual se parte à descoberta da cidade, visitando a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, o edifício do Hospital Termal, as Capelas de S. Sebastião e do Espírito Santo, os belos fontanários setecentistas, o Parque D. Carlos I e a Mata, patrimónios construídos e naturais, não se devendo esquecer o espectáculo efémero do belo Mercado da Fruta que diariamente anima a cidade.

Mais difícil do que criar uma obra é garantir a sua continuidade. Consegui-la será a prova da eficácia deste projecto que, com empenho, vimos desenvolvendo.

O Futuro dos Museus – Recuperar – Reinventar

“Uma colecção é um lugar. Mas não um lugar fechado ou um lugar estreito. Porque uma colecção é um lugar feito de muitos lugares, e de cada um desses lugares se chega por diferentes caminhos”
João Pinharanda

Analisar a pertinência do projecto Museu do Hospital e das Caldas, pressupõe ultrapassar a tendência para centrar a discussão em torno da importância histórico-patrimonial da colecção do Museu, esmiuçando antes a potencialidade em acentuar esse valor através da promoção de novos diálogos, muitas vezes de acentuados contrastes, que a gestão de um espaço museológico com estas características promove.

Implica também, por outro lado, contornar o excesso de focalização do desígnio de curadoria inerente a qualquer projecto museológico, privilegiando antes a experiência entre visitante/objecto/espaço e a consequente percepção histórico-espacial de um lugar: Caldas, que em última análise fornecerá os elementos fundamentais para a construção de cada diálogo.

No final, está sobretudo em causa perceber a legitimidade deste projecto, analisando os resultados no que respeita à adesão por parte da população local e circundante, na oportunidade de proporcionar um Serviço Educativo eficiente e numa maior procura por parte de um público social, cultural e etariamente diversificado. Sensibilizar e cativar a população para a história local e potenciar um maior envolvimento e aptidão para a generalidade das actividades culturais.

Como refere Simon Thurley, “O Património são as pessoas”. É pois neste fundamento que se compreende a amplitude do conceito de “ambiente histórico”: paisagem, jardins, parques, edifícios, usos e costumes, enfim todo um agregado de bens, que em conjunto constituem o património do Hospital Termal Rainha D. Leonor, e que nos traduzem aquilo que fomos e, acima de tudo, se assumem como elementos essenciais para concebermos o que pretendemos ser no futuro. O seu usufruto é pois factor essencial para a sua sustentabilidade presente e futura.

O entendimento do complexo patrimonial acima referido, só é possível à luz do conhecimento histórico e conjectural que motivou, não apenas o surgimento da própria instituição, o seu modelo de gestão, mas também a própria relação que com outras organizações foi promovendo ao longo dos tempos.

É na articulação dos diversos espaços que se alicerça a continuidade do Hospital Termal Rainha D. Leonor, justificando numa lógica de compromisso entre o passado e o presente, a preservação e modernização da sua vocação inata: o tratamento histórico-científico das temáticas assistenciais e da saúde, traçando desta forma as novas vias de modernização do termalismo e do estudo da História.

A perpetuação da memória histórica do Hospital Termal e da sua Rainha fundadora, traduzida no Museu do Hospital e das Caldas, assume-se como instrumento condutor da sua programação. O Museu desempenha assim um papel determinante na construção de identidades culturais, no encontro de raízes históricas que nos fornecem os instrumentos necessários à construção da nossa própria identidade.

O seu papel social, mais especificamente a sua componente pedagógica, deixa de ser focalizada apenas numa relação entre museu/publico que contempla numa atitude passiva; privilegiando antes uma relação activa, onde a partilha, a troca de saberes e experiências entre ambas as partes, se promovem.

Num momento em que somos confrontados com uma nova realidade de vivências sociais, onde novas dinâmicas despertam como soluções que se impõem perante os novos desafios vividos, é, agora talvez mais pertinente do que nunca, repensar a forma de viver e gerir o Museu.

Muitas têm sido as discussões em torno destes novos paradigmas, por vezes de aparente contraste: a experiência virtual, o acesso à informação de forma mais alargada, a portabilidade do saber, a distância e a apropriação, são conceitos que adquirem nova dimensão. No dia 18 de Maio de 2020 as actividades desenvolvidas em plataformas virtuais envolveram mais de 83 milhões de pessoas nas redes socais, dados do ICOM.

Se por um lado o distanciamento não é barreira ao conhecimento, permitindo até abranger um maior leque de público. Por outro, a vivência destes últimos tempos mostrou que são precisamente os maiores museus que mais terão sofrido com a quebra de visitas: menos 75% de visitantes, ao contrário dos museus de carácter comunitário onde essa quebra foi menos notada.

É por isso imperativo estreitar relações com a comunidade, reforçar a relação histórico-social, integrar as estratégias de educação e cidadania, investir no potencial criativo da cultura, alavancando soluções inovadoras, novas práticas de valor, em suma, novos modelos de gestão que garantam a sustentabilidade destes espaços. Os conceitos de apropriação e responsabilização ganham aqui uma nova grandeza e propósito.  

É esse o desafio que nos propomos, é esse o convite que vos deixamos.

Dora Mendes

Museu do Hospital e das Caldas

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O Hospital Termal de Caldas da Rainha assumiu-se desde logo como uma das instituições assistenciais mais notáveis do país, destacando-se desde cedo nos anais da história da assistência e saúde em Portugal.

O seu modus operandi, traduzido num conjunto de características organizacionais, funcionais e patrimoniais, tornam-na única no seu género, levando a que alguns autores defendam que se trata do primeiro hospital termal do mundo.  

É neste âmbito que se destaca o Livro do Compromisso, no qual o Hospital se apoiou não apenas para traçar as suas linhas orientadoras, mas também a forma de acolher e tratar todos os que, ao longo de mais de 500 anos, o procuraram.

O Livro do Compromisso, assinado a 18 de Março pela Rainha D. Leonor, reflecte as intenções e desejos que a rainha tinha no que concerne à gestão e ao modo como deveria decorrer o quotidiano do hospital de Nossa Senhora do Pópulo.

De forma geral, este manuscrito constitui-se como o primeiro documento definidor das normas pelas quais os diferentes “oficiais” ao serviço do hospital, se deviam reger, assumindo-se assim, como a lei-base desta instituição.

As regras inclusas no Compromisso eram transversais a toda a comunidade hospitalar durante os seis meses de cura. Caracteristicamente funcionando como uma instituição total, a actividadehospitalar obrigava a um ajustamento entre todos os que o habitavam, visando o cumprimento das normas estabelecidas pela rainha

Ou seja, as actividades levadas a cabo diariamente quer pelos servidores quer pelos enfermos faziam-se me bloco, estando todas elas orientadas para a prática das catorze obras de misericórdia, de resto invocadas no inicio do Compromisso.

No que ao quotidiano diz respeito, o Compromisso constitui-se como um riquíssima fonte de informação sobre as práticas diárias, seja ao nível das operações médicas, contabilísticas e organizativas, seja ao nível das tarefas domesticas.

Este documento manter-se-ia em vigor até ao reinado de D. José, altura em que seria reformulado pelo próprio marques de Pombal, prosseguindo no entanto o seu essencial.

Ainda que o Compromisso de 1512 estipulasse a abertura do hospital no primeiro dia do mês de Abril e o seu encerramento no último dia de Setembro, foi a partir do reinado de D. José, com o novo regimento, datado de 1775, que o hospital passou a abrir no dia 15 de Maio.

Dada a relação que sempre houve entre o Hospital e a Villa, muito provavelmente aqui se encontra a razão para decretar o seu feriado municipal a 15 de Maio.

 

 

Por Dr. Jorge Varanda

Quando cheguei ao Centro Hospitalar, como administrador hospitalar, em dezembro de 1979, ainda pude conhecer o antigo encarregado do pessoal operário, herdado do Hospital Termal, pelo Centro Hospitalar criado em 1971, pela fusão do Hospital Distrital com o Hospital Termal Rainha D. Leonor.

Recordo do Sr Luzio a ideia misteriosa que fazia do circuito das águas que nasciam no Hospital Termal, em contraste com os conhecimentos científicos adquiridos com a realização dos recentes furos de abastecimento de água termal ao Hospital.

O Sr Luzio, apesar de afastado da vida do Hospital, por  aposentação, reflectia a profunda ligação afectiva que o ligava ao Hospital Termal. Para se entender isso, há que recordar que o Hospital Termal herdara de Rodrigo Berquó uma equipa de pessoal operário de que o Sr. Luzio fora encarregado e que teria trabalhado no Hospital desde o fim da Monarquia.

Um dia deu-me uma informação preciosa, segundo a qual havia vários caixotes com azulejos que pertenciam às enfermarias de D. João V Hospital Termal e que a ampliação empreendida por Rodrigo Berquó, no final do século anterior, obrigara a retirar dos espaços originais. Os caixotes haviam sido guardados numa das chamadas cavalariças da Parada. Estavam, todavia, escondidos num monte de coisas lá arrumadas.

Mais tarde, quando do V Centenário do Hospital Termal, houve necessidade de esvaziar as ditas cavalariças, o que permitiu recuperar esses caixotes e empreender mais tarde a montagem do puzzle dos painéis com a ajuda de alunos da Escola de António Arroio. Felizmente esses belíssimos painéis ajudam hoje a engrandecer o espólio do Museu.

A outra história é um fait divers da memória do Sr. Luzio que havia ainda vivido os últimos anos da Monarquia nas Caldas da Rainha, quando a Família Real vinha a termas, ficando alojada no designado Palácio Real hoje adaptado a Museu. Trata-se de uma brincadeira dos Príncipes, D. Luís Filipe e D. Manuel. Para guardar a Família Real havia sempre uma sentinela que se perfilava em sentido sempre que o Rei, a Rainha ou algum dos Príncipes saiam do Palácio. Fazendo gala dessa prerrogativa, os Príncipes, ainda crianças, faziam uma brincadeira que era saírem e entrarem do Palácio só para verem a sentinela a perfilar-se, repetindo o movimento no seu espírito infantil.

Finalmente acresce um testemunho meu, passado algures nos meus anos 80, nas Caldas: um dia no caminho que fazia do meu gabinete para o Hospital Termal fui interpelado por um cidadão inglês que trazia um livro na mão, relativo às invasões napoleónicas e à ajuda que a Inglaterra deu a Portugal para expulsar os invasores franceses. Perguntava-me o cidadão inglês se aquele era o Palácio Real, pois tinha registado no referido livro que Wellington, no comando das forças britânicas tinha instalado no Palácio o seu quartel-general, numa determinada fase da guerra, provavelmente na fase de avanço para Lisboa.

Aqui deixo estas pequenas histórias para enriquecer a memória do binómio Palácio/Museu, edifício a que nos habituámos a chamar de Palácio Real, mas que ouvi noutros tempos designar de Palácio dos Infantes.

Humores e Odores: Ordem corporal e ordem social

Urinóis e escarradores atestam uma preocupação com a expulsão sistemática das secreções corporais. Esta preocupação associa-se à antiga medicina hipocrática, segundo a qual o funcionamento perfeito do organismo humano, assenta em quatro substâncias básicas que governam o corpo: o sangue, a fleuma, a bile negra e a bile amarela. A predominância de uma dessas substâncias provocaria a doença, pelo que a melhor terapia seria restabelecer o reequilíbrio das quatro forças, através da aplicação de sangrias, purgativos e laxantes.

Originais da China, os escarradores irão difundir-se pela Europa entre os séculos XVI e XVII. Visto no início como uma prática salutar, enquanto forma de expelir secreções nocivas, o acto de escarrar era publicamente tolerado e praticado, assumindo-se dessa forma os escarradores como peças de presença obrigatória. Com o avanço dos conhecimentos em microbiologia, o acto de escarrar passou a ser mal visto, considerado anti-higiénico e altamente potenciador da propagação de microorganismos, especialmente o bacilo de Koch, causador da Tuberculose.

“Ao lado de cada uma das camas havia bacios, também designados (…) “urinóis”(…). Nos primeiros anos de funcionamento do hospital eram de madeira (ex. 1525-1524), mas a partir de 1563 passaram a ser de barro vidrado. Parece-nos que a mudança (…) se deu não só por questões de higiene, como também para facilitar o processo uroscópico levado a cabo duas vezes ao dia pelo físico (…). O barro vidrado permitia ao físico analisar com mais facilidade a cor, cheiro e nebulosidade da urina dos doentes. (…)”