Por Dr. Jorge Varanda

Quando cheguei ao Centro Hospitalar, como administrador hospitalar, em dezembro de 1979, ainda pude conhecer o antigo encarregado do pessoal operário, herdado do Hospital Termal, pelo Centro Hospitalar criado em 1971, pela fusão do Hospital Distrital com o Hospital Termal Rainha D. Leonor.

Recordo do Sr Luzio a ideia misteriosa que fazia do circuito das águas que nasciam no Hospital Termal, em contraste com os conhecimentos científicos adquiridos com a realização dos recentes furos de abastecimento de água termal ao Hospital.

O Sr Luzio, apesar de afastado da vida do Hospital, por  aposentação, reflectia a profunda ligação afectiva que o ligava ao Hospital Termal. Para se entender isso, há que recordar que o Hospital Termal herdara de Rodrigo Berquó uma equipa de pessoal operário de que o Sr. Luzio fora encarregado e que teria trabalhado no Hospital desde o fim da Monarquia.

Um dia deu-me uma informação preciosa, segundo a qual havia vários caixotes com azulejos que pertenciam às enfermarias de D. João V Hospital Termal e que a ampliação empreendida por Rodrigo Berquó, no final do século anterior, obrigara a retirar dos espaços originais. Os caixotes haviam sido guardados numa das chamadas cavalariças da Parada. Estavam, todavia, escondidos num monte de coisas lá arrumadas.

Mais tarde, quando do V Centenário do Hospital Termal, houve necessidade de esvaziar as ditas cavalariças, o que permitiu recuperar esses caixotes e empreender mais tarde a montagem do puzzle dos painéis com a ajuda de alunos da Escola de António Arroio. Felizmente esses belíssimos painéis ajudam hoje a engrandecer o espólio do Museu.

A outra história é um fait divers da memória do Sr. Luzio que havia ainda vivido os últimos anos da Monarquia nas Caldas da Rainha, quando a Família Real vinha a termas, ficando alojada no designado Palácio Real hoje adaptado a Museu. Trata-se de uma brincadeira dos Príncipes, D. Luís Filipe e D. Manuel. Para guardar a Família Real havia sempre uma sentinela que se perfilava em sentido sempre que o Rei, a Rainha ou algum dos Príncipes saiam do Palácio. Fazendo gala dessa prerrogativa, os Príncipes, ainda crianças, faziam uma brincadeira que era saírem e entrarem do Palácio só para verem a sentinela a perfilar-se, repetindo o movimento no seu espírito infantil.

Finalmente acresce um testemunho meu, passado algures nos meus anos 80, nas Caldas: um dia no caminho que fazia do meu gabinete para o Hospital Termal fui interpelado por um cidadão inglês que trazia um livro na mão, relativo às invasões napoleónicas e à ajuda que a Inglaterra deu a Portugal para expulsar os invasores franceses. Perguntava-me o cidadão inglês se aquele era o Palácio Real, pois tinha registado no referido livro que Wellington, no comando das forças britânicas tinha instalado no Palácio o seu quartel-general, numa determinada fase da guerra, provavelmente na fase de avanço para Lisboa.

Aqui deixo estas pequenas histórias para enriquecer a memória do binómio Palácio/Museu, edifício a que nos habituámos a chamar de Palácio Real, mas que ouvi noutros tempos designar de Palácio dos Infantes.

Humores e Odores: Ordem corporal e ordem social

Urinóis e escarradores atestam uma preocupação com a expulsão sistemática das secreções corporais. Esta preocupação associa-se à antiga medicina hipocrática, segundo a qual o funcionamento perfeito do organismo humano, assenta em quatro substâncias básicas que governam o corpo: o sangue, a fleuma, a bile negra e a bile amarela. A predominância de uma dessas substâncias provocaria a doença, pelo que a melhor terapia seria restabelecer o reequilíbrio das quatro forças, através da aplicação de sangrias, purgativos e laxantes.

Originais da China, os escarradores irão difundir-se pela Europa entre os séculos XVI e XVII. Visto no início como uma prática salutar, enquanto forma de expelir secreções nocivas, o acto de escarrar era publicamente tolerado e praticado, assumindo-se dessa forma os escarradores como peças de presença obrigatória. Com o avanço dos conhecimentos em microbiologia, o acto de escarrar passou a ser mal visto, considerado anti-higiénico e altamente potenciador da propagação de microorganismos, especialmente o bacilo de Koch, causador da Tuberculose.

“Ao lado de cada uma das camas havia bacios, também designados (…) “urinóis”(…). Nos primeiros anos de funcionamento do hospital eram de madeira (ex. 1525-1524), mas a partir de 1563 passaram a ser de barro vidrado. Parece-nos que a mudança (…) se deu não só por questões de higiene, como também para facilitar o processo uroscópico levado a cabo duas vezes ao dia pelo físico (…). O barro vidrado permitia ao físico analisar com mais facilidade a cor, cheiro e nebulosidade da urina dos doentes. (…)”

Rodrigo Berquó

Admirado por uns e odiado por outros, Rodrigo Berquó foi uma das personagens mais marcantes na história do Hospital Termal.

Retratado por Rafael Bordalo Pinheiro como um homem alto, forte, de cariz impressionante com as suas “botas descomunais” caminha “com passo determinado as praças esventradas e as ruas esburacadas” das Caldas da Rainha, pisando “impiedosamente o chão rasgado pelos aterros das novas construções, calcorreando incessantemente as obras lançadas. Num afã de quem varre tudo à sua frente e não conhece obstáculos inultrapassáveis, Berquó está pronto para derrubar qualquer barreira que se lhe erga na frente.”

Como refere João Bonifácio Serra, “De facto, um verdadeiro terramoto se abateu sobre a pacata vila das Caldas durante a gestão de Berquó.”

A acção de Berquó marca este período não apenas pelo magnífico plano de reforma de todo o complexo termal, mas também pela sua inabalável determinação, que ao longo dos 7 anos em que presidiu à Administração do Hospital Termal, garantiu que nunca cedesse ou se deixasse abalar pelas inúmeras dificuldades burocráticas, criticas, discordâncias, e tantas outros entraves que determinaram este trajecto. Esta determinação não seria, porém, insensível ao contexto em que actuava, mas a convicção da necessidade imperativa do plano que reforma termal para o sucesso futuro da instituição e da própria cidade, fizeram com que Rodrigo Berquó nunca se deixasse abalar.

Por certo que esta personalidade forte, chocou com a pacata vila das Caldas da Rainha. Refere João Bonifácio Serra sobre este contraste “Adoptando a imagem do dito chinês sobre o elefante e as porcelanas, dir-se-ia que o elefante, neste caso, não podia deixar de partir a louça…”.

O ambicioso projecto que Berquó se propunha concretizar, resultava de um conjunto de necessidades identificadas ainda na anterior administração por Francisco Eduardo de Andrade Pimentel. Em 1886 pede ao Ministro que nomeie uma comissão uma comissão de peritos para que se elaborasse um plano de obras para o hospital termal. A Comissão de Reforma ficou no entanto aquém do esperado, levando Pimentel a demitir-se em 1888, ficando Rodrigo Berquó, seu sucessor encarregue de concretizar todo o Plano de Reforma.

O conceito de termalismo alterara-se a partir do século XVIII, ampliando a sua acção terapêutica a áreas de lazer e de bem-estar. Grande parte do fluxo termal era agora composto por elites sociais, deixando de assentar basicamente no doente pobre que procura alívio para o reumatismo. Tratam-se de turistas endinheirados que procuram residência nos hotéis e casas da vila, fazendo da permanência termal tempo de férias a par com a rotina termal.

A chegada do caminho-de-ferro às Caldas veio potenciar essa nova dinâmica à vila. Refere O Diário Ilustrado e o Correio da Noite, em crónicas enviadas das Caldas e assinadas pelas iniciais A.M. que chegavam pessoas das mais variadas condições, “os elegantes ao lado dos miseráveis, clero ao lado da nobreza e do povo. Todos os hotéis se encontravam cheios, não restava uma casa particular para alugar, sequer um cubículo.”

“Apesar desta procura, na vila faltava tudo. O carteiro adoecera, os boletineiros eram analfabetos, pelo que os próprios veraneantes eram forcados a proceder pessoalmente nos Correios à escolha da correspondência. As ruas cheiravam mal e faltava todo o equipamento característico das entrâncias termais adiantadas: bons hotéis, chalés, “cottages”, “garden parties”, casinos, etc. (…) Apesar do afluxo crescente de aquistas, vila não dispunha de estruturas de acolhimento, e as suas ruas, em terra batida, mais pareciam autênticas cavalariças permanentemente envolvidas em nuvens de pó.”

O plano de recuperação assentará assim em três fases principais:

1º Transformação do Passeio da Copa num Parque

2º Instalação do Hospital Civil de Santo Isidoro em edifício de raiz, afastado do nucelo termal

3º Construção de um novo Hospital Termal.

Deu conta a Rainha a sua Santidade como no termo da Villa de Obidos havia huns banhos destruídos, e arruinados os quaes por falta de Enfermarias que não havia naquelle lugar não herão frequentados dos Enfermos para recuperarem a saúde, e ella vendo isto movida de santa devoção recuperara e reformara os ditos banhos com suas próprias despezas”.             

Jorge de São Paulo

As fontes de rendimento do hospital provinham dos géneros e rendas vindas das propriedades fundiárias pertencente ao hospital, e ainda pelas doações feitas pela coroa e pelos legados pios, deixados pelo povo e enfermos para a instituição.

As visitas da fundadora ao hospital e da sua comitiva foram presença frequente no Hospital de Nossa Senhora do Pópulo, no período compreendido entre 1518-1525. Uma dessas visitas ter-se-á prolongado por cerca de três meses, desde o início de Novembro (1518) a Março (1519).

O recurso a alguns documentos da época, como é o caso dos Livros de Receitas e Despesas, referentes a estes anos, permite-nos compreender as despesas diárias do hospital, e consequentemente o tipo de consumos alimentares que eram feitos pelos enfermos e pela comitiva real, aquando das referidas visitas, e quais as diferenças verificadas no referido consumo/despesas.

 A alimentação não era distribuída de forma igual por toda a população do hospital, variava caso fossem escravos e servidores, enfermos, frades, funcionários hospitalares, pessoas ligadas aos círculos reais, ou os próprios monarcas, que seriam sem dúvida alvo do melhor tratamento e servidos com as melhores iguarias.

A maximização dos recursos destinados aos doentes contrasta com a exuberância da alimentação das pessoas de estatuto social elevado que passavam pelo hospital. A análise dos Livros de Contas confirma que presença da Rainha despoletou o aumento das despesas, assim como uma maior preocupação relativa ao abastecimento de géneros, e permite-nos ainda ficar a conhecer os locais onde a rainha se encontrava, através dos produtos que lhe eram enviados pelo seu hospital.

A chegada da rainha causava sempre grande azáfama, segundo os documentos mencionados, alguns dias antes da chegada da fundadora foram ordenados gastos em:

– Lenha de Zimbro da Serra do Bouro, para queimar na “câmara” da rainha;

– Cargas de maças de várias qualidades de Aljubarrota;

– Roupas novas, para melhorar o aspecto dos trabalhadores do hospital ”novos vestidos de burel”;

A visita da soberana levou à alteração dos calendários de funcionamento do hospital, que nesse ano abriu duas vezes, sendo habitual abrir apenas uma. D. Leonor foi recebida com vários banquetes, e durante o período em que se manteve nas Caldas, o hospital transformou-se numa espécie de corte em pequena escala, gravitando à sua volta, muitas pessoas ilustres afluíram à vila. Os gastos foram bastante elevados, feitos à custa do hospital, sem contribuição da rainha. Durante este período as despesas com os enfermos, acabaram por passar para segundo plano, sendo dada prioridade à rainha e sua comitiva, assim como aos seus visitantes.

Quando deixou o hospital, a 14 de Março de 1519, o provedor continuou a enviar-lhe presentes até à data da sua morte. Quase todos os meses recebia alguma encomenda do seu hospital, entre queijadas, porcos, pipas de vinho, coelhos, empadas, peixe, pombos, marisco, vitela e muitos outros.

O Hospital das Caldas manteve um carácter rural ano início do século XVI, integrando os senhorios da Rainha, e quando era necessário monopolizava os recursos em função da própria, deixando em segundo plano os enfermos. Verificou-se portanto uma relação de reciprocidade entre a Rainha e o seu Hospital. A rainha deixou garantidas rendas, fez doações frequentes ao hospital, algumas em géneros provenientes de outras regiões do país, como a confecção de marmelada, as ameixas secas, os figos. Sempre que fosse necessário, sabia que seria recebida com pompa e circunstância para que nada lhe faltasse.

Não foi fácil dar resposta às exigências alimentares provocadas pela presença da Rainha no Hospital, e ainda que fosse a detentora daquele senhorio, muitas vezes os consumos da rainha e seu séquito, fizeram-se à custa das rendas do hospital. A estratificação social é visível nos consumos alimentares do hospital, que variavam em quantidade e qualidade de acordo com o grupo social a que se pertencia. O hospital não escapou às hierarquias da sociedade da época, ainda que a sua fundadora tivesse bom coração.

Bibliografia:

Jorge de São Paulo, O Hospital das Caldas até ao ano de 1656, vol.I Lisboa, Academia de Ciências de Lisboa,1967

Conde de Sabugosa, A Rainha D. Leonor, 2ª edição, Lisboa, Livraria Sam Carlos

Lisbeth Rodrigues, Os consumos alimentares de um hospital quinhentista: o caso do hospital das Caldas em vida de rainha D. Leonor, Trabalho elaborado no âmbito do projecto Portas Adentro: modos de habitar no século XVI a XVIII em Portugal

Núcleo Museológico

A fundação do primeiro hospital de Peniche deve-se à Confraria do Corpo Santo, fundada pelos mártires de Peniche a 31 de Março de 1505.

“A irmandade, ou Confraria do Corpo Santo, foi vivendo no seu labor de bem-fazer, prestando culto a Deus e atendendo às muitas necessidades do povo em proveito e bem comum de todos, até porque, desde a sua fundação, foram grandes os sofrimentos da população, passando pelos violentos efeitos de vários terramotos e devastadoras epidemias. Assim, para cumprimento dos seus objectivos, sendo que a construção de um hospital era coisa verdadeiramente indispensável, resolveram os Irmãos, com os óbolos que iam sendo arrecadados e também com a reconhecida participação de todo o povo – sempre generoso, é bom dizê-lo-, construir, em 1617, um hospital, tal como ainda hoje o testemunha uma pedra a servir de verga à porta que dá para a secretaria da Santa Casa da Misericórdia de Peniche, ao lado da porta principal da Igreja da Santa Casa e onde se pode ler:

ESTE OSPITAL SE POBRES SE FES COM ESMOLAS

DESTE POVO E MESA DO CORPO SANTO COMECOVSSE

A OBRA A 2 DE ABRIL DE 1617”

Com a fundação da Misericórdia de Peniche no ano de 1626, tendo como primeiro Provedor D. João Gonçalves de Ataíde, a Irmandade de São Gonçalves Telmo, num gesto de profunda solidariedade e como forma de garantir os recursos necessários ao funcionamento do seu hospital, coloca-o à disposição da nova obra social. Através da nova gestão pela instituição recentemente criada pela Rainha D. Leonor, foram assim garantidos os apoios sociais e de saúde a todos os necessitados, bem como ainda o patrocínio cultural para a Igreja vizinha, dos magníficos quadros de Josefa de Óbidos e de seu pai, Baltazar Gomes Figueira.

A par com o hospital do Corpo Santo, e depois da Misericórdia, funcionava em Peniche um outro hospital de menores proporções destinado a assistir a guarnição militar do regimento que então funcionava em Peniche. Embora fosse destinado apenas a prestar cuidados de saúde à guarnição militar, é certo que muitas vezes terá funcionado um regime de cooperação entre as duas unidades hospitalares, particularmente com a intenção, solidária, de combater o flagelo das epidemias que em várias épocas fustigaram gravemente a região.

No entanto, apesar de toda a entreajuda, em 1699 numa altura em que o hospital militar não tinha capacidade de assistir a todas as necessidades dos soldados doentes, o então governador Marechal Vasco Fernandes César de Menezes, propõe a celebração de um acordo com a Misericórdia, a fim de esta se obrigar a assistir os militares em troca de um pagamento mensal de 30 réis por cada soldado, acrescendo ainda do soldo correspondente aos dias em que os doentes ficassem hospitalizados. Fazendo-se notar nesta altura uma influência dos oficiais da guarnição militar na gestão da Misericórdia, o acordo foi inicialmente aceite. Todavia, inesperadamente, a Santa Casa acaba por comunicar o não interesse pela proposta feita, levando o próprio Rei D. Pedro II a dirigir-se ao escrivão da vedoria da Praça de Peniche, ordenando-lhe que diligenciasse junto do provedor e irmãos da Misericórdia para que “no seu hospital aceitem os soldados enfermos aplicando se lhes para seu sustento e cura a contribuição de 40 re(i)s por mês, que se há de descontar a todos os oficiais e soldados e juntamente o soldo dos dias que estiverem no hospital, com que se entende não ter detrimento a Caza da Misericórdia, maioritariamente tendo nesse tersso surgiam (cirurgião) que há de assestir aos doentes e medico com partido e a esta ordem dareis cumprimento como nella se contem, da qual se tomara rezão, na contadoria”. No entanto nem mesmo esta proposta foi aceite, mantendo-se o problema até 1837 quando a Misericórdia acaba por aceitar uma proposta provavelmente influenciada pela situação politica de então (guerras liberais e absolutistas), tendo de cumprir uma determinação do então comandante para 1ª Divisão Militar.

Por volta de 1831 as instalações do primitivo hospital encontravam-se bastante degradas, tornando-se necessário remodela-las para que as obrigações assistenciais pudessem ser cumpridas.  Em 1911, após a instauração da República, apesar da perda e quebra de algumas das fontes tradicionais de rendimento, a Santa Casa da Misericórdia consegue criar instalações para um albergue e recolha de doentes idosos. Em 1930 foi possível melhorar a assistência hospital através do legado deixado pelo Dr. Pedro António Monteiro e com a colaboração da Liga dos Amigos do Hospital.

Outro marco da história deste hospital dá-se em 1937 com a criação daquele que foi o primeiro Centro Cirúrgico do distrito de Leiria e um dos primeiros instituídos do país, sob a orientação do Dr. Ernesto Moreira.

Com a reforma das políticas assistenciais que ocorrem por todo o país em Abril de 1974, o Estado passa a assumir a responsabilidade da prestação dos Serviços de Saúde a toda a população, passando o Hospital de Peniche a ser directamente administrado pelo Estado, cabendo-lhe pagar à Santa Casa da Misericórdia uma renda mensal pela utilização das respectivas instalações. Serão várias as Comissões Instaladoras que se elegerão a partir desse momento objectivando a resolução de problemas identificados no funcionamento do hospital e Centro de Saúde.

Será em 16 Janeiro de 1981, pela Portaria nº65/81, que o Hospital de Peniche passa para o âmbito da competência da Direcção-Geral dos Hospitais. Esta portaria será revogada em 31 de Maio de 1983 passando o Hospital Concelhio de Peniche para a competência das administrações regionais de saúde do distrito de Leira.

Em 1986 é inaugurado o novo edifício, passando a ter uma capacidade de 100 camas destinadas à Medicina, Cirurgia, Pediatria e Obstetrícia, com serviços de S.A.P./Urgência, S.O. com 3 camas, RX, Laboratório, Farmácia, Lavandaria, Cozinha, Bar, Biblioteca, Atendimento com Balcão, Secretaria, Gabinetes de Administração, Gabinetes de Saúde Pública e Gabinetes de Consulta para Planeamento Familiar, Saúde Materna, Saúde Infantil, Enfermagem e Vacinação. Após alguns anos de organização de serviços e compatibilidades com o Centro de Saúde, foi, em 19 de Janeiro de 1987, por despacho do Ministro da Saúde, criado o Hospital de Peniche classificado como Hospital de Nivel 1. No despacho de 24/11/94 o hospital passa a designar-se como Hospital de S. Pedro Gonçalves Telmo, em homenagem ao patrono da antiga Irmandade de S. Pedro Gonçalves Telmo ou Confraria do Corpo Santo.

Será integrado no Centro Hospitalar Oeste Norte em 2009 pela Portaria nº83/2009 numa medida de reorganização de serviços e complementaridade assistencial entre as unidades hospitalares existentes. Em 2012, pela portaria 276/2012 o Centro Hospitalar de Caldas da Rainha, O Hospital de São Pedro Gonçalves Telmo e o Hospital de Torres Vedras passaram a constituir-se como Centro Hospitalar do Oeste, mantendo-se até hoje.

É no contexto apresentado que surge em 2002, pela iniciativa da Dra. Maria José Oleiro, Administradora-Delegada do Hospital de Peniche, um núcleo museológico do Hospital de Peniche. É inaugurado pelo então Presidente da ARS, Dr. Fernando Andrade a 2 de Outubro do mesmo ano.

Era Inicialmente constituído por duas áreas de exposição, uma principal e outra com caracter rotativo. O núcleo principal mantém-se e exibe um gabinete médico e várias peças antigas, pretendendo dar uma visão do passado desta unidade de saúde. A exposição temporária tinha como objectivo dar a conhecer outras áreas e serviços hospitalares.

Por Pe Filipe de Sousa

Sempre os mártires foram lembrados na Igreja Católica. Entre eles tem lugar de destaque o mártir S. Sebastião. Ainda jovem, é martirizado numa das muitas perseguições contra os cristãos do imperador romano Dioclesiano, que manda atar o jovem soldado a uma árvore e cravejar o seu corpo de inúmeras setas, deixando-o padecer em lenta agonia.  

Habitualmente o martírio, mais do que a morte sumária, envolve um processo prévio de sofrimento cruel, injustiça gritante e ódio ignóbil, que cega e seduz as multidões, em particular os homens de poder. Lembremo-nos da Paixão e Morte de Jesus, o primeiro dos Mártires, que carregou a cruz pelas ruas da cidade santa de Jerusalém enquanto era açoitado e humilhado por muitos homens e mulheres, enquanto outros assistiam impassíveis. Mas a morte de Cristo não foi o fim da Sua Vida, o Pai deu-lhe novamente a Vida ao remover a pedra do sepulcro e O ressuscitar dos mortos. Como escreve S. João no Evangelho, que é proclamado, solenemente, em todos os Domingos de Páscoa: “No primeiro dia da semana, Maria Madalena vai ao sepulcro, de madrugada, quando ainda estava escuro, e vê que a pedra fora retirada do sepulcro. […] Então, entrou também o outro discípulo que chegara primeiro ao sepulcro: e viu e acreditou. Pois ainda não tinham compreendido que, conforme a Escritura, ele devia ressuscitar dos mortos” (Jo 20, 1.8). 

Na verdade, era necessário que Cristo sofresse e morresse para nos mostrar o infinito amor de Deus por nós, que nos entregou o Seu próprio Filho. Este, por sua vez, entrega-se ao Pai, doando-se a toda a humanidade. Em rigor, como a espiritualidade cristã fez sempre notar, o martírio de Jesus é a Sua Paixão ao Pai e a todos os homens. De tal maneira, que a ressurreição é prometida a todos aqueles que acreditam n’Ele. A pena dá lugar ao mais importante da vida: o amor.

O martírio atualiza na história aquilo que é a morte e ressurreição de Cristo, a Sua Paixão, a esperança da vida nova que a Páscoa celebra, o amor que vence a morte, em qualquer circunstância. Santo Ambrósio, na pregação que desenvolve a propósito da memória litúrgica de S. Sebastião, escreve que “a muitas perseguições correspondem muitas provações: onde há muitas coroas de vitória tem de ter havido muitos combates”.

Os tempos conturbados que vivemos são também de perseguição: perseguição àquilo que tínhamos como garantido. A Páscoa de Jesus que nos preparamos para celebrar dentro de dias não vai acabar com a pandemia, mas quer renovar a nossa resposta: o amor e confiança em Deus que nos dá a vida e promete a vida. Esta é a “vacina” gratuita e eficaz contra todas as perseguições e combates, cujo testemunho vivo nos deixou o mártir S. Sebastião.  

Santa Páscoa. Cristo ressuscitou: Aleluia, Aleluia!

Ermida de S. Sebastião:

De autoria de Bartolomeu Antunes (1688-1753) e Nicolau Freitas (1703-1765), os painéis azulejares que revestem as paredes até à cornija ostentam representações da vida de S. Sebastião, desde a sua condenação, prisão, martírio, até à sua glória. De destacar a grande capacidade ornamental do azulejo que define o envolvimento arquitectónico, perspectivando cenários da vida do orago adornados por armas, troféus, palmas do martírio e setas emblemáticas.

Descrição dos painéis: Painel Historiado representando a “Vida de S. Sebastião”

Duas figuras: a da esquerda parece dormitar; a da direita reza ajoelhada

Com enquadramento danificado pela construção posterior de um coro, ladeiam a porta da parede fundeira dois painéis representando duas figuras humanas: a da esquerda, por cima da pia de água benta, parece dormitar tranquilamente sobre um livro fechado, segurando uma cruz no regaço, a da direita, reza ajoelhada aos pés de um pequeno altar, sobre o qual há um Cristo Crucificado, dois livros e uma caveira. Na parte inferior de ambos, as palmas do martírio.

Aparição do Senhor dos Sete Anjos a S. Sebastião

Enquadrada por pilastras rectilíneas ornamentadas com panóplias, a aparição do Senhor dos Sete Anjos a São Sebastião. Mutilada a parte superior pela introdução de um coro no tempo de D. Maria I que, em 1786 permaneceu com a corte nas Caldas e fez, desta Ermida, Capela Real.

S. Sebastião apresenta-se ao imperador Diocleciano

Em enquadramento rectangular, ladeado por duas pilastras profusamente decoradas por elementos vegetalistas e ao centro por um busto humano, armas, troféus e palmas ou setas do seu martírio – , S. Sebastião apresenta-se perante o imperador Diocleciano, sentado no seu trono. Na parte superior da composição vê-se uma cabeça de anjo entre elementos vegetalistas, enquanto na inferior, ao centro, figuram três palmas as setas emblemáticas do martírio do Santo.

Os gémeos Marco e Marcelino, guerreiros romanos, convertidos por S. Sebastião

Envolvendo a porta do lado da Epístola e com enquadramento de pilastras ornadas de panóplias e festões, as figuras dos guerreiros romanos, os gémeos Marco e Marcelino convertidas ao cristianismo por S. Sebastião e, por isso, como ele, também mártires.

Anjos ostentam grinaldas e festões. Elementos emblemáticos do martírio do Santo

Do lado do Evangelho, enquadrando o púlpito, entre pilastras rectilíneas decoradas por panóplias, dois anjos ostentam grinaldas e festões com frutos. Na parte inferior do envolvimento, um ornato concheado circunda elementos emblemáticos do martírio do Santo.

Como capitão da 1ª coorte, vai à prisão ver os gémeos Marco e Marcelino

Entre pilastras decoradas com panóplias, S. Sebastião, capitão da 1ª coorte romana, dirige-se à prisão, na companhia de outros soldados, onde estão encarcerados os gémeos Marco e Marcelino, que aguardam sentença por serem cristãos.

Capitão da 1ª coorte visita presos e confronta a mãe ou a esposa de Marco

Em enquadramento semelhante ao anterior, São Sebastião, vestido de capitão da 1ª coorte romana, visita os cristãos encarcerados, exortando-os a morrer por Cristo, enquanto consola uma mulher ajoelhada a seus pés, a esposa ou mãe de Marco, cavaleiro romano que o Santo havia convertido ao cristianismo e por isso fora preso.

S. Sebastião confessa-se cristão e o imperador Diocleciano manda prendê-lo e condená-lo ao martírio

Num enquadramento exuberantemente ornamentado, S. Sebastião confessa-se cristão perante Diocleciano, que, irado, o mandou prender e condenar ao martírio.

O martírio de S. Sebastião

Com enquadramento lateralmente constituído por pilastras com panóplias, a cena do martírio de São Sebastião, que, preso a uma árvore, semi-nu, é alvejado com setas por soldados romanos, enquanto outros se preparavam para a flagelação. Sobrepujando a composição, um elemento concheado patenteia atributos do martírio, na parte inferior, ao centro, vê-se ladeada por palmas, uma panóplia.

Monges oram de joelhos a anjos sustentam o panejamento que envolve o retábulo

Na capela-mor, no revestimento da parede testeira, dois anjos, ladeando o altar, seguram um reposteiro com panejamentos em largas pregas, deixando a descoberto o retábulo, em composição verdadeiramente notável e rara na azulejaria portuguesa. De ambos os lados do altar, duas figuras em trajos monacais oram de joelhos.

Por Pe. Diogo Maleitas Correia

 e Bernardo Neves Garcia

Padroeiro da terceira paróquia fundada em Peniche, São Sebastião é um dos santos mais populares em toda a Igreja. Com memória litúrgica a 20 de Janeiro, o “Mártir Santo” é celebrado por Católicos e Ortodoxos, com profundas raízes na devoção popular. Sebastião pertencia a uma família nobre de Milão, no norte de Itália, com fortes tradições militares. Conhecemos a sua vida através dos relatos de Santo Ambrósio, bispo de Milão, no século IV, que nos conta que, em 283, foi nomeado capitão da primeira corte da Guarda Pretoriana, que era a guarda pessoal do Imperador. Cumpria a disciplina militar, embora não participasse dos sacrifícios idolátricos, sendo respeitado por todos e estimado pelo imperador, que desconhecia a sua qualidade de cristão. Pelo seu exemplo e testemunho muitos pagãos abraçaram a Fé e se converteram. Além disso, como bom cristão, exercitava o apostolado entre seus companheiros, visitava e alentava os cristãos presos a não desanimarem e encorajava-os a aceitar o martírio em nome de Cristo. Esta situação não poderia durar muito e, em 288, foi denunciado ao imperador Diocleciano que o obrigou a escolher entre ser seu soldado ou seguir a Jesus Cristo. Firme na Fé, foi martirizado, sendo atado a um tronco e crivado de flechas, como é habitualmente representado. Contudo, embora dado como morto, as suas feridas foram tratadas por Santa Irene, viúva de outro santo – Cástulo – e conseguiu sobreviver. Voltou corajosamente à presença do Imperador e denunciou a sua crueldade para com os cristãos. A princípio, o imperador ficou sem fala, mas depois ordenou que Sebastião fosse espancado até a morte. Este trágico acontecimento aos olhos do mundo foi apenas o começo de uma história que a Cristandade não mais apagou da sua memória, tendo sido atribuído a São Sebastião o cognome de “Defensor da Igreja”. Desde a Idade Média que o povo também invoca o “Glorioso Mártir” como especial advogado nas causas de fome, peste e guerra, os três males mais temidos pela sociedade, sobretudo a partir do XIV.

Tão poderoso intercessor não foi esquecido pelo povo Português e um pouco por todo o território nacional foram surgindo igrejas, capelas e altares dedicados a São Sebastião, devoção que os Portugueses, com o seu carácter missionário, difundiram por todo o Mundo. Particularmente no Brasil, foram muitas as vilas dedicadas a São Sebastião, nomeadamente a importante praça militar de São Sebastião do Rio de Janeiro. Após 1578, com a morte D’El Rei D. Sebastião na célebre Batalha de AlcácerQuibir, o Reino de Portugal, órfão do seu rei e da grande maioria dos grandes titulados, novamente volta a olhar com especial devoção para o Santo cujo nome era o mesmo do jovem monarca desaparecido. Peniche não foi excepção, erguendo-se ainda no século XVI uma ermida com o orago de São Sebastião, numa zona arenosa, à época bastante afastada do povoado de “Peniche de Baixo”, de onde lhe veio o título de “Ermida de São Sebastião das Areias”. Esta primitiva construção foi ampliada logo nos primeiros anos do séc. XVII, não tardando a constituir-se ao seu redor um pequeno aglomerado populacional, o que levou a que o templo fosse elevado a igreja paroquial, em 1604. Com a coroação de Nossa Senhora da Conceição como Rainha e Padroeira de Portugal por D. João IV, em 1646, também a então vila de Peniche adquiriu uma imagem da Imaculada, de madeira com pintura estofada a ouro, colocada em lugar de destaque no altar-mor do templo. Esta invocação sobrepôs-se a partir daí à do próprio orago da igreja, constituindo-se rapidamente a “Irmandade de Nossa Senhora da Conceição”, uma das mais ricas de Peniche no início do século XVIII. A irmandade procurou então redecorar o espaço de acordo com os novos ditames estéticos da época, configurando uma verdadeira “obra de arte total”, de elaborado programa artístico, integrando a talha dourada, o azulejo e a pintura de tectos, conjunto que ainda hoje se conserva, revelando a qualidade artística do opulento Barroco de Peniche. O interior da nave é coberto por tecto com pintura de “brutescos”, representando o medalhão central a “Imaculada Conceição”, da autoria de Pedro Peixoto (atrib.), o mesmo autor das pinturas do tecto e telas laterais da capela-mor da igreja de S. Pedro de Peniche. As paredes da nave e da capela-mor foram integralmente revestidas de azulejo azul e branco, com motivos alusivos à vida de Nossa Senhora, conjunto de grande qualidade, integrado no ciclo dos “Grandes Mestres” do período de D. João V.

O espaço foi ainda guarnecido com cinco retábulos de talha dourada em Estilo Nacional: o retábulo do altar-mor, com imagem da Padroeira de Portugal, e quatro altares na nave, albergando as imagens de São Sebastião, Santo António, São José e Santa Catarina de Alexandria. É importante destacar o altar de Santo António, cuja imagem, por alvará régio, foi alistada no Regimento de Infantaria de Peniche com o posto de Alferes, recebendo um soldo mensal de seis mil réis. Era também costume os militares casarem diante desta imagem, pedindo a protecção do seu padroeiro. No séc. XIX, com a extinção das ordens religiosas, em 1834, a igreja foi alvo de uma nova campanha de obras, aproveitando elementos trazidos do extinto convento franciscano do Bom Jesus de Peniche. Assim, procede-se ao revestimento de azulejos do coro alto, alusivos à vida de S. Francisco, e à construção da torre sineira. Nesta campanha foi ainda rasgada na fachada a janela com varandim, que substituiu o óculo que existia até então. Provavelmente, também durante esta remodelação se deu uma nova cobertura à capela-mor de uma feição mais simples, com o monograma “Maria” encimado pela coroa de rainha. Por fim, pela década de trinta do século XX, a primitiva imagem de Nossa Senhora da Conceição, viria a ser substituída por uma imagem de vestir, que se conserva na actualidade e é alvo de grande devoção por parte das gentes de Peniche, que a honram com solene procissão a 8 de Dezembro. Hoje, a igreja de São Sebastião é uma das maiores jóias do património histórico-artístico de Peniche, cabendo a cada um de nós valorizá-lo e conservá-lo, legando-o às gerações vindouras como testemunho de Arte de Fé.

Caldas da Rainha

Desconhece-se com precisão a data de construção da Capela de São Sebastião, no entanto podemos coloca-la nos primeiros anos do século XVI, ou ainda mesmo, nos últimos da centúria anterior, visto que, Frei Jorge de São Paulo, douto complicador das antiguidades caldenses e Provedor do Hospital de Nossa Senhora do Pópulo, diz o seguinte: “Esta Hermida se sam Sebastiam me paresse se edificou no tempo que se obrava o edifício do Hospital e se fazião cazas no Rocio da Villa pera os moradores.”

Refere ainda que em 1509 já estava a capela concluída, faltando-lhe apenas a licença para erigir o Altar e “participarem a exercer o culto.”

Terá sido construída pela Câmara com auxílio dos munícipes, sendo que a festa e a procissão do Santo Mártir eram feitas as expensas da Câmara, a quem, em 1614, eram atribuídas, pelo Visitador do Arcebispo Tomás Gonçalves Ferreira, as funções de fabriqueira da Capela.

Nos primeiros anos do século XVI foi constituída em Paróquia, com Baptistério, para servir algumas povoações muito distantes de Óbidos, como eram: Casal Novo, Avenal, Moinhos dos Pinheiros, Torre, Formigal, e Coto, com o Val e Casais.

No século XVIII durante o reinado de D. João V, o Magnânimo, sofreu a capela uma total modificação, sem deixar vestígios da sua traça primitiva. Foi então enriquecida interiormente com preciosíssimos azulejos da primeira metade do mesmo século, representando em grandes painéis de belo efeito decorativo, diversas passagens da vida e martírio de S. Sebastião que se mantém até hoje.

Ainda no mesmo século XVIII, no ano de 1786, nova alteração é feita na Capela. A Rainha D. Maria I e a Corte vêm residir para as Caldas, fugindo à peste que grassava em Lisboa. É preciso adaptá-la a Capela Real. Sobem mais as paredes e é construído o coro, posto em comunicação, por meio de um passadiço com o prédio fronteiro, entretanto desfeito.

Tem no interior duas lápides sepulcrais de Salvador Quintal e seu irmão Manuel do Quintal. Salvador quintal foi uma figura de destaque do Rossio Quinhentista. Casado com Branca de Torres era “tosador”, avaliador e abastado lavrador que ali possuía quintal e casa de morada, para além de outros bens nas Caldas. Mesteiral e figura de prestígio entre os lavradores da área, instituiu capela na igreja de S. Sebastião, tal como seu irmão Manuel do Quintal, mercador e lavrador.

Amores e desamores

Reinados no Hospital Termal Rainha D. Leonor

Se pelas águas nasceu o Hospital Termal de Nossa Senhora do Pópulo, foi pelo amor ao próximo que uma Rainha criou as condições para a construção e subsistência ao longo de mais de 500 anos, daquele que viria a ser considerado como o primeiro Hospital Termal do mundo.

“Aquela Rainha, tão portuguesa, e é a mais nobre personificação do amor ao próximo.” Júlio Castilho

Ainda que o seu amor pelo Rei D. João II não se tivesse constituído como um romance digno de novela, a manifestação do sentimento assumiu-se como marca da “Princesa Perfeitíssima”, pela prática constante de misericórdia e mais virtudes cristãs.

Ao nascer, foi destinada a João II de Portugal – o “Príncipe Perfeito” – por vontade e promessa de seu tio Afonso V. Casou com o primo direito a 22 de Janeiro de 1470 quando tinha apenas 12 anos de idade, e o noivo 15. O seu casamento com D. João II esteve envolto de muitas questões complexas, para além da infidelidade do rei, muitas foram as tragédias que abalaram a rainha, desde contendas familiares, onde se atestou o envolvimento do marido no assassínio do seu irmão e execução do seu cunhado; e a cruel morte de seu filho, numa queda de cavalo junto ao rio.

Não deixou no entanto que todos estes acontecimentos assombrassem o seu amor e bondade para com os indigentes e enfermos, que conjugado com outros factores, terá conduzido à fundação do Hospital de Nossa Senhora do Pópulo, que surgiu associado a um movimento de reformulação de assistência ao pobres e doentes do país, e o que de acordo com alguns historiadores terá funcionado como ensaio para aquela que viria a ser uma das suas maiores obras – as misericórdias.

Também as artes foram outra das paixões da rainha, tendo promovido a importação de obras de arte e dirigido inúmeras encomendas a mestres e autores portugueses na pintura, escultura, arquitectura e literatura. O seu envolvimento na promoção cultural traduziu-se ainda na protecção concedida a Gil Vicente e Damião de Góis.

A Rainha D. Leonor faleceu no seu Paço de Xabregas, nos arredores de Lisboa, junto ao convento do mesmo nome. Quis ficar sepultada no Convento da Madre de Deus, em campa rasa de pedra, num lugar de passagem para que todos a pisassem, gesto que demonstra a grande humildade da rainha, e que emociona. No fundo quis a monarca que o seu gesto mostrasse aos que por ali viessem a passar, o sinal da pequenez das coisas do mundo diante da eternidade.

Foram vários os Reis que passaram pelo nosso Hospital mantendo uma proximidade na gestão e reformulação do complexo termal, sendo alguns mais marcantes.

No que concerne a amores, D. João V merece especial destaque. São sobejamente conhecidas as suas aventuras e desventuras amorosas, as quais, ao contrário da Rainha D. Leonor, foram várias vezes dignas de registo em novelas.

 “O Rei-Sol Português”, em virtude do luxo de que se revestiu o seu reinado. Diz Veríssimo Serrão em «História de Portugal» que «era senhor de uma vasta cultura, bebida na infância com os padres Francisco da Cruz, João Seco e Luís Gonzaga, todos da Companhia de Jesus. Falava línguas, conhecia os autores clássicos e modernos, tinha boa cultura literária e científica e amava a música.»

Reinando no auge do Século XVIII, período de grande prosperidade nacional, não terá sido apenas por amor, tal Rainha D. Leonor, que D. João V empreendeu um conjunto de obras no Hospital Termal de Caldas da Rainha, das quais pouco restou do edifício primitivo. Desconhece-se aliás que alguma história amorosa esteja associada a esta obra, tal como esteve com a construção do Palácio de Mafra, em torno do qual são várias as especulações associadas, ganhando destaque a promessa feita pelo Rei a Deus de que edificaria um convento em Mafra no caso de lhe nascer descendência no prazo de um ano a contar daquela data.

O primeiro amor do Rei terá sido aos 15 anos por Filipa de Noronha, dama da Rainha Maria Sofia de Neuburgo, mãe do fogoso príncipe. Cheio de promessas de amor eterno e até de casamento, acabou em desilusão quando se deu o arranjo para o grande casamento do Rei. D. João V viria a casar-se com D. Maria Ana de Áustria em 1709, mas o seu coração transbordava de muito amor, e segundo o historiador Oliveira Martins, “D. João V perdia a cabeça por todas as mulheres, mas a sua verdadeira paixão estava em Odivelas, no ninho da madre Paula”. A verdade é que nesse tempo a vocação era uma das últimas razões para que as mulheres dedicassem a sua vida a Deus, e as visitas aos conventos faziam parte da regra social. Paula Teresa da Silva e Almeida, a famosa Madre Paula, foi a mais famosa das amantes do Rei. Conheceu o primeiro amor de sua vida no convento, o conde de Vimioso, porém, foi com o rei português D. João V que ela viveu o seu caso mais avassalador e duradouro. Como era seu costume, o Rei não fez segredo desta paixão que se tornou conhecida de todos, incluindo a Rainha. E, como também era sua prática, recompensou ao longo de vários anos, generosamente a sua amante. Ainda que várias vezes advertido pelo médico para que repousasse à noite, nem por isso o Rei acatava tais recomendações e continuaria a alimentar o seu espirito ardente.

Após a Madre Paula, seria D. Luísa Clara de Portugal, casada com D. Jorge de Menezes. As visitas a esta eram feitas aquando das ausências do seu marido e filhos para o Algarve. Ficou-se o epíteto de Flor da Murta, extensivo ao palacete onde habitava. Mas D. João V não se ficava pelas visitas a D. Luísa, também galanteava uma das suas criadas, chegando mesmo a nomear o irmão desta, sapateiro de ofício, como diplomata junto da Santa Sé, em Roma.

A última das amantes de D. João V, por volta dos seus 50 anos, terá sido a cantora de ópera Petronilla Basilli. Procurando manter-se à altura do desempenho requerido, o rei começou a tomar afrodisíacos.

Algum tempo depois começou-se a murmurar que o Rei estaria “acabado”, dedicando-se então a gestos de beneficência. Amante também da música e literatura, o rei impulsionou diversos serões musicais e literários. Incentivou a vinda de autores estrangeiros, a compra de livros, a construção de bibliotecas e introduziu a ópera italiana em Portugal. E a sua acção mecenática é marcada por forte religiosidade e espirito de fé, revelada nas ofertas de arte sacra e objectos litúrgicos às Igrejas de todo o país, como se comprova na valiosa doação destinada à Igreja de Nª Senhora do Pópulo, feita em 14 de Agosto de 1742.

O rei fez ainda nos últimos anos de vida, mais doze jornadas às Caldas da Rainha, para convalescer e descansar. Mas gradualmente adoeceu cada vez mais. Em Julho de 1750 piorou, vindo a falecer em 31 de Julho de 1750, após mais de quarenta anos de governo. Ao morrer, o rei tinha a seu lado a rainha e o príncipe D. José. Foi sepultado no Panteão dos Braganças, ao lado da esposa, no mosteiro de São Vicente de Fora em Lisboa.

D. Carlos será o Rei reinante que marcará outro dos períodos mais relevantes na história do Hospital Termal Rainha D. Leonor, o século XIX. Período esse em que se verificou um entusiasmo socioeconómico sem precedentes, e em que as visitas da família real se tornam constantes nos meses de Verão, desencadeando-se dinâmicas de grande aparato social. Tornou-se óbvia a necessidade de modernização da estância termal, que incluía a separação entre balneário e hospital, para que o estabelecimento balnear fosse apenas destinado à aplicação terapêutica das águas.

Sob a alçada de Rodrigo Maria Berquó surgiu um projecto bastante ambicioso, que previa a construção de um novo edifício hospitalar, o designado novo Hospital Real D. Carlos. A troca de correspondência oficial comprova o pedido ao rei para dar o seu nome ao hospital, cuja autorização se verificou, quer para o hospital, quer para o parque arbóreo que envolvia o mesmo e que ainda hoje se mantém como ex-libris da cidade, Parque D. Carlos I.

O rei D. Carlos I foi considerado uma individualidade artística, homem de ciência, destacando-se também a nível da prática desportiva como equitação, caça e pesca. Demonstrou grande paixão pelas belas artes, distinguindo-se na aguarela e no desenho a pastel, ganhando diversas medalhas e diplomas. O seu reinado foi marcado por acontecimentos que anunciavam o fim da monarquia, como o Ultimato Inglês, revoltas no ultramar e a revolução republicana.

Em meados de 1880, a princesa Maria Amélia ficou destinada a D. Carlos, o Duque de Bragança, o casamento funcionaria para unir as linhagens austríacas e espanhola. Ainda assim, ficaram relatos de que, D. Carlos dono de cabelos loiros encaracolados terá conquistado o coração de Amélia logo que a viu pela primeira vez. A jovem descrita como gentil e carismática, também terá feito os olhos do duque brilharem. Em pouco tempo, os dois ter-se-ão apaixonado, e o seu casamento terá sido feliz.

O rei D. Carlos I enfrentou diversas crises no seu reinado, lutando contra a insatisfação popular Amélia fez um trabalho exemplar, com sua influência na corte portuguesa, a elegante monarca tentou erradicar a pobreza e a tuberculose. Mulher extremamente humana, chegando a assistir pobres e doentes nas suas próprias casas. Fundou a Assistência Nacional aos tuberculosos, que deu apoio às classes necessitadas. A bondosa rainha procurou garantir a prosperidade desta grande obra de humanidade.

Na tragédia de 1 de Fevereiro de 1908, em que foram assassinados o rei D. Carlos I, e o príncipe real D. Luís Filipe, seu filho, terá ela tentado impedir a desgraça, tendo a coragem de se impor, mas infelizmente não conseguiu.

 “Embora francesa de origem, tornou-se portuguesa pela afeição à sua Pátria adoptiva, que a ela se prendeu com todos os afectos. Era esta afeição que lhe aprimorava a alma e o coração.”; Padre José Correia da Cunha